Capítulo 27 – Preparativos
Faltavam
apenas duas semanas para a data prevista para o parto. Deborah, tinha tudo
preparado e organizado. O quarto da bebé, a mala que tinha de levar para o
hospital… Apesar de tudo, sentia-se feliz e aguardava ansiosamente a chegada da
filha. Sentia-se preparada física e psicologicamente para a nova fase da sua
vida.
Durante meses chorou a ausência de Fernando, até que
se habituou a ela. Amaldiçoou-o ao início, mas depois aceitou que se não fosse
o que se havia passado nunca teria engravidado. A presença dele que nem um
relâmpago na sua vida teve um propósito: ser mãe. Se não tivesse acontecido
dessa forma nunca teria acontecido. E apesar da bebé ainda não ter nascido,
Deborah, tinha a certeza de que esta era a maior bênção que poderia ter tido.
- Deborah, faltam duas semanas para a bebé nascer,
sei que a decisão é tua, mas o Fernando tem o direito de saber. – Laura,
pressionou a amiga enquanto ambas dobravam a roupa da bebé.
- Ele optou por cortar todo e qualquer contato
comigo. Quis seguir com a vida dele, espero, sinceramente, que seja muito feliz.
- Tu não disseste que ele ia ser pai. Ele tem o
direito de saber. A tua filha vai ter o direito de saber… O que lhe vais dizer
quando chegar a altura?
- Vou dizer-lhe a verdade. Vou dizer-lhe que ela é
fruto de um grande amor. Vou dizer-lhe que ela é filha do destino e que os pais
perderam o contato.
- E, não achas que ela tem direito a crescer com um
pai?
- Eu sou capaz de fazer isto sozinha, não preciso
de homem nenhum.
- Não estamos a falar de ti, Deborah. Estamos a
falar da tua filha. Ela precisa de um pai.
- Tem o padrinho, o George. Ele estará sempre
presente.
- Não acho justo o que estás a fazer, para ninguém.
Não é justo para a bebé, não é justo para o Fernando, não é justo para o George…
- O George? O George é que está sempre a bater à
minha porta. Já fui bastante clara que não irá acontecer nada entre os dois.
Ele insiste em apoiar-me, em estar presente.
- O George é um cavalheiro e teu amigo. Não quer
ver-te a passar por esta situação sozinha. E sim, tem esperança de que um dia…
- Não vai acontecer. Não vou gostar de homem nenhum
desse jeito, nunca mais na vida.
- A decisão é tua. Sou tua amiga, não vou deixar certas
coisas por dizer. Os amigos são para isso também, sabes? Para nos dar na
cabeça.
- Eu compreendo, Laura, compreendo a sério. Mas, eu
estou bem assim. Já estou preparada para o que vem aí. Passaram vários meses, o
Fernando poderia ter batido à porta como o fez da primeira vez. Secretamente,
não mudei de casa na esperança de que o fizesse. Ele sabe onde me encontrar.
Porque é que não o fez?
- Deve ser casmurro como tu. Deve estar a seguir a
vida dele e a chorar pelos cantos…
- A Laura, romântica está de volta.
- Só não acredito que a vossa história acabe assim.
- A nossa história acaba bem, amiga. Acaba com tu a
segurares a tua afilhada nos braços… E, já que estamos numa de dizer as
verdades, com o George ao teu lado.
- O quê? – Laura, engasgou-se.
- Pensas que eu não reparei como olhas para ele? Como
mudas quando ele está por perto? Já vi esse olhar. – A tristeza dançou-lhe nos
olhos.
- Ele não tem olhos para mim. Não quero ser a
segunda escolha de ninguém. Isto passa…
- Ele não sabe… Já o vi a olhar para ti da mesma
forma. Está preso a esta ideia de que tem de me salvar. Tudo irá acontecer a seu
tempo…
- Se… Se acontecesse, ficavas chateada?
- Eu? Mais uma coisa boa que viria dessa gravidez.
Os meus melhores amigos juntos!
Falaram mais um pouco sobre a paixão de Laura por
George. A amiga contou-lhe que não se tinha apercebido das coisas a acontecerem.
Um dia acordou e o George não lhe saia da cabeça. Deborah, estava feliz porque
nunca tinha visto a amiga apaixonada e estava na hora de ela ter o seu final feliz.
No fim, tudo iria acabar bem.
Acabou de dobrar as roupinhas da filha e preparou
um banho de banheira. As palavras da amiga não lhe saiam da cabeça. Não poderia
manter este segredo para sempre. Como iria fazer para registar a menina? Com a
revelação de Laura não poderia aceitar a oferta de George, de registá-la como dele.
E Fernando? Por que motivo nunca mais a contatou? Já
a tinha esquecido de vez? Se já o tinha feito ficava feliz por ele, porque ela
não o conseguia tirar da cabeça. Aprendeu a viver sem ele e a aceitar um futuro
sem a presença dele, mas não deixou de o amar. Todos os dias à noite, dormia
abraçada à almofada e a lembrar-se da noite em que partilharam a mesma cama e
conceberam a filha. Foi mágico. Foi tão mágico. Onde foi essa magia?
Houve alturas em que, Deborah, pensou em ir a
Luanda. Pensou em voltar a procurá-lo, mas o tempo passou e depois devido ao
avançado estado da gravidez, deixou de ser possível. Para piorar a situação,
Fernando, não era adepto das redes sociais e era das poucas pessoas no mundo
que não tinha Instagram ou Facebook. Por um lado, isso era bom, caso contrário
iria perder horas a ver fotos da sua felicidade sem ela por perto.
Assustou-se com o som da campainha. Quem poderia
ser a estas horas? Já tinha tido a visita da mãe, de George e de Laura durante
o dia. E eles sabiam que ela se deitava cedo. Provavelmente era algum vendedor,
ou alguma campanha para ajudar as crianças necessitadas, os animais, ou o
ambiente. A campainha voltou a soar. Deborah, levantou-se a custo e desceu as
escadas cuidadosamente. O peso da barriga já começava a incomodar. Sentiu-se
feliz em lembrar-se que a mãe, no dia seguinte, iria passar uma temporada com
ela para ajudar com as últimas semanas e depois com a bebé.
Espreitou e não reconheceu a pessoa. Era uma
rapariga de estatura média, cabelos castanhos longos e uns olhos muito
familiares. Perguntou em voz alta, antes de abrir a porta.
- Deborah? É a Deborah?
- Sim, sou eu. Quem é?
- Sou a Daniela. Irmã do Fernando…
Deborah, abriu a porta e olhou para a rapariga à
sua frente, era realmente muito parecida com Fernando. Deixou-a entrar e
pediu-lhe que tirasse os sapatos. Daniela estava estática a olhar para a
barriga enorme de Deborah. Deborah, encaminhou-a para a sala e pediu-lhe que se
sentasse.
- Queres tomar alguma coisa, Daniela? Um chá, café,
água?
- Água… Sim, água, por favor…
Deborah, caminhou lentamente até à cozinha e voltou
passado uns minutos com um copo de água.
- Aqui tens. – Sentou-se na cadeira da mesa, virada
na direção de Daniela. – O que te traz aqui.
- Tu… O meu irmão não sonha que estou aqui. Acho
até que me iria matar se soubesse… Mas, agora não sei a quem vai matar… Desculpa,
a pergunta. A conversa que preparei na minha cabeça não era esta… Mas, tenho de
perguntar. Estou a fazer contas na minha cabeça… E existe uma pequena
possibilidade… Remota, mas existe… Vou perguntar…
- O que queres saber, Daniela.
- Essa gravidez… Essa gravidez é do meu irmão?
Deborah, ponderou a resposta. Poderia mentir e
dizer que não. Daniela sairia dali e provavelmente nunca mais voltaria. Não
sabia o que a trazia a Londres, mas estava curiosa. Mentir? Deborah, não acreditava
em mentiras.
- Sim. A gravidez é do teu irmão
- Meu Deus. O Fernando vai-se passar!
- O Fernando? Se ele tivesse ligado para mim, se me
tivesse procurado eu teria dito. A minha gravidez não é segredo nenhum para as
pessoas que fazem parte da minha vida.
- Deborah… - Daniela, segurou-lhe as mãos. – O meu
irmão não passa um dia sem falar de ti. Vim cá porque já não aguentava ouvi-lo
uma vez mais sem fazer nada por isso. Ele colocou na cabeça que tu seguiste com
a tua vida e que não o ias querer, não do jeito em que ele está.
- Do jeito? De que jeito? O que se passa?
- Isso é uma longa história, Deborah. Acho melhor
prepararmos um bule de chá…
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