Capítulo 30 – Faith
Entre
a correria para o hospital, as contrações, as dores, os gritos e a confusão na
sala de emergências, Deborah e Fernando mal tiveram tempo para falar.
Fernando,
estava a tentar processar a informação. Grávida. Hospital. Parto. Filha. Pai.
Estava a horas ou minutos de ser pai, e só agora tinha acabado de saber. Não
sabia se ficava chateado com Deborah, ou com ele próprio. Perdeu as consultas,
as ecografias, o primeiro movimento… Perdeu a oportunidade de passar a mão na
barriga de Deborah e de falar de mansinho com a filha. Valia a pena procurar culpados?
Deborah, ainda tentou falar com ele, ele nem por isso. Usou a cadeira de rodas
como uma desculpa para não a encarar. Na realidade, tinha medo da rejeição. Não
era fácil adaptar-se à nova realidade e pedir a Deborah que o fizesse parecia
injusto.
Fernando, acompanhou Deborah até à sala de parto.
Colocou uma bata e deixaram-no entrar. Estava emocionado e grato por ao menos
poder fazer parte deste momento. O parto foi rápido. Antes de dar por ele, já Deborah
tinha a menina nos braços. Era linda, perfeita… Fernando, não conseguiu conter
a emoção e beijou Deborah, apaixonadamente. Os médicos colocaram-lhe a filha
nos braços.
Deborah, olhou para ambos e sentiu-se completa. O
quadro era perfeito, naquela sala ela tinha tudo o que ela poderia desejar no
mundo. As enfermeiras levaram a menina para o berçário e Deborah para o quarto.
Fernando, foi convidado a juntar-se a Deborah. Daniela, Laura, George e Dona
Maria, aguardavam ansiosamente na sala de espera.
Pela primeira vez, após muitos meses, Fernando e
Deborah ficaram sozinhos. Fernando, não sabia por onde começar. Tinha tanto
para falar. Deborah, também não sabia por onde começar. Olharam-se nos olhos e abraçaram-se.
Fernando, escondeu a face no peito de Deborah e chorou durante alguns minutos.
Chorou de dor e de alegria. Chorou pela dor que passou e pela alegria de ser
pai. Ficaram abraçados durante vários minutos.
- Estás bem? Como te sentes? – Fernando, quebrou o silêncio.
- Nem sei explicar… Exausta. Feliz. Preocupada.
Quero a nossa filha aqui no quarto connosco. Quero-a aqui.
- Tem calma, as enfermeiras já a trazem. Estão
apenas a fazer o trabalho delas.
- Mas eu quero a menina aqui. Quero-a aqui,
connosco. Os três… Os três…
- Deborah, eu não sei por onde começar. Passou-se
tanta coisa. Eu pensei que tu… Olha para mim. Não sou o mesmo homem que tu conheceste.
- Não espero que sejas o mesmo. A experiência pela
qual tu passaste muda as pessoas. Espero ter a oportunidade de conhecer o homem
que te tornaste. A tua essência e a tua alma mantêm-se. Eu apaixonei-me por
ambas.
- Vais ter dois filhos para criar…
- Vou ter duas pessoas para amar para a vida toda.
- Estás sob efeito de medicação. Não estás a ver o
cenário todo.
- Fernando, eu sei que não vai ser fácil. Eu sei
que vamos ter muito que reajustar. Eu sei disso tudo, mas também sei o que
passei nos últimos meses. Como foi difícil estar longe de ti. Como todos os
dias de manhã eu rezava para que tudo não passasse de um sonho ou para que pudesse
voltar à nossa conversa, ao ponto onde tudo correu mal. Não consigo nem
imaginar pelo que tu passaste, pelo que estás a passar. Só queria ter estado ao
teu lado.
- És realmente extraordinária. Não te mereço.
- Fernando, a vida é curta demais para colocarmos
entraves. Não achas que ambos já sofremos o suficiente? Vamos colocar uma
borracha em tudo e recomeçar… Estou exausta.
- Vou deixar-te descansar.
- Não, é isso. Estou exausta, sim, mas estou mais
exausta de não te ter ao meu lado. Tu e a nossa filha são a minha vida. Onde
estivermos, desde que seja juntos não me interessa.
- Queres falar sobre isso depois?
- Não, foi isso que nos complicou. Vamos falar
sobre isso agora. Deixar já bem definido.
- OK. Como queres fazer?
- Da única forma que faz sentido. Nós vamos viver
contigo para Portugal. Depois logo se vê. Agora não faz sentido tomarmos
qualquer outra decisão.
- Largarias tudo para vir ficar comigo em Lisboa?
- Claro que sim. Tens de continuar a tua fisioterapia.
Eu, neste momento estou em licença de maternidade, pouco importa onde estou. Só
quero estar contigo.
- Deborah, casas comigo?
- Eu já me casei contigo, seu tonto.
- Casa comigo na igreja. Como manda o figurino.
- Não aceito. Não quero.
- Não queres casar comigo? – perguntou, preocupado.
- Quero, mas não na igreja. Eu tenho outra ideia para
a nossa união oficial.
- E queres partilhar comigo essa ideia?
- Partilho contigo quando me trouxeres a filha para
os braços. Onde andam as enfermeiras?
Fernando, já estava a ir ao encontro das
enfermeiras quando elas trouxeram a bebé para o quarto. Deborah, segurou a
filha nos braços e sentiu um aperto enorme no coração. Era um sentimento
difícil de explicar, o amor de uma mãe por uma filha…
- E qual o nome que vamos dar à menina? Ou vamos chamá-la
de filha a vida toda?
- Eu tenho o nome ideal para ela. – disse, Deborah.
– Um nome que funciona melhor em inglês, mas é o nome que eu quero para ela.
- Tanto suspense…
- Acho que vais gostar. Faith. – Deborah, sorriu. –
A nossa filha vai chamar-se Faith.
- Faith. Soa-me bem. Destino.
Os visitantes impacientes entraram em grupo no quarto.
A avó babada, a tia, a madrinha, e o padrinho. Deborah, sentiu-se feliz. A
filha já era tão amada.
George, apresentou-se e cumprimentou Fernando, o
qual não conseguiu esconder a ponta de ciúme. George, esteve presente durante a
gravidez de Deborah.
- Obrigada, George. Obrigada pelo apoio.
- Ela é uma mulher extraordinária, Fernando. Nunca
te esqueças disso.
- Não, nunca. – abraçaram-se e juntaram-se à festa.
Deborah, não deixou de reparar na troca de palavras
entre o amigo e o Fernando. Ficou feliz ao ver que ambos se deram bem. Chegou o
fim do horário das visitas e apenas Fernando, como pai da criança, foi permitido
permanecer no quarto. Estava exausto, mas não queria ir para lado nenhum, sem a
mulher e a filha. Deborah, conseguiu finalmente descansar ao lado da filha.
Ele, sentado na sua cadeira de rodas, apoiou a cabeça na cama e permitiu-se
descansar. De repente, tudo fez sentido. Finalmente, tinha encontrado a
definição de lar.
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