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Capítulo 29 - Revelação


Capítulo 29 – Revelação

            - O Fernando, tem passado por tudo isto? – Deborah, não queria acreditar no relato de Daniela.
- Sim. Não está nada fácil para ele, Deborah. O acidente… A fisioterapia… A vontade de estar contigo e contactar-te, mas sem coragem para o fazer… Ele sente-se menos homem…
- Eu quero lá saber se ele está numa cadeira de rodas! Temos sorte de ele ter sobrevivido. Que horror… O que ele passou, sozinho… Eu deixei-lhe um bilhete… Eu pedi-lhe que me ligasse… Disse que o amava e que estava à espera que me viesse buscar.
- Que bilhete é esse? Ele não disse nada.
- Deixei recado na empresa, quando fui a Luanda procurar por ele… Ele estava na fazenda. Coitado. Já devia estar no poço… Meu Deus…
- O meu irmão não voltou ao escritório desde o acidente. É capaz de nunca ter recebido o teu bilhete…
- Eu perdi o contacto dele… Eu apaguei… Fui tão estúpida… E agora? O que posso fazer?
- Ele está de regresso a Luanda. Acho que vai ficar por uma semana, Deborah. Eu vou conversar com ele assim que ele regressar a Lisboa. Eu não sei como ele vai reagir às notícias… Ai, a minha mãe. A minha mãe vai ficar doida. Avó? E eu? Vou ser tia? Não posso acreditar.
- Nem eu às vezes… - Deborah, suspirou. – Olha, queres passar cá a noite? Eu tenho mesmo de me ir deitar. Já não aguento de cansaço.
- Desculpa, não vi as horas a passar. Eu mando vir um Uber, não te preocupes.
- Preciso descansar… Se eu pudesse metia-me num avião e ia ter com o Fernando. Gostava de ser eu a dar-lhe as notícias… Mas, neste estado não posso ir a lado nenhum.
- Se quiseres eu não conto nada… Peço-lhe apenas para vir falar contigo. Digo-lhe que conversamos que tu ainda gostas dele… Gostas, não gostas?
- O teu irmão enfeitiçou-me, Daniela. Pertenço-lhe, para sempre. Pertenço-lhe desde o dia em que o vi na Chicala. Vou ter uma filha dele. A minha vida deu uma volta de 365 graus desde que ele entrou na minha vida. Achas que é uma cadeira de rodas que vai mudar o que eu sinto por ele? Só faz-me amá-lo ainda mais… A sua força…
- Fico tão feliz por ouvir isso. Ele tem passado um inferno sem ti. Acho que lhe custa mais a tua ausência do que a cadeira de rodas… Vai ficar tudo bem.
Daniela, abraçou Deborah e partiu. Pelo que ela descreveu os últimos meses de Fernando tinham sido um sufoco. O acidente… O diagnóstico… A recuperação… Poderiam ter passado por isso juntos. Ela poderia ter estado ao lado dele, dado a força que ele precisava, o apoio… Tinha vontade de meter-se num avião e ir ter com ele. Precisava dizer-lhe o quanto o amava.
Olhou para o número do telemóvel que Daniela deixou. Podia ligar para ele. Podia ligar e dizer-lhe que o amava. E depois? Dizer que vai ser pai e que ela não disse nada? Isso não era uma conversa para se ter ao telefone, não depois de tanto tempo.
A mãe chegou no dia seguinte. Já começava a sentir algumas contrações e ficou feliz por ter a companhia da mãe. Juntas, terminaram os últimos preparativos para o quarto da bebé. Não conseguia deixar de pensar em Fernando e como ele se estaria a sentir. Questionava-se sobre a sua reação quando soubesse que ia ser pai. Provavelmente iria ficar chocado ao início, mas depois apaixonar-se de imediato, assim como ela.
Contou a Laura tudo o que se tinha passado. Fernando não tinha desaparecido por não gostar dela. Muito pelo contrário, tinha desaparecido por gostar demais dela. Provavelmente nunca tinha lido o bilhete que ela deixou. Ainda a amava, apenas achava que ela não o iria querer. Estava tão enganado.
- E, agora? O que vais fazer?
- Não posso fazer muito mais. Primeiro tenho de ter esta menina e depois logo se vê.
- Não vais ligar para ele?
- Não quero dar-lhe as notícias por telefone. Não são coisas que se falem  por telefone. Nós não nos falamos há meses. Não pode ser assim.
- Tens razão. Eu é que estou a delirar. Parece uma história saída de um filme. Coitado.
- Não consigo imaginar o que ele tem passado. E pior, não estive ao lado dele quando ele mais precisava.
- Não tens culpa, Deborah. Tu ainda tentaste…
- Não deixo de sentir-me mal por isso… Parece que estávamos destinados a nos desencontrar.
- E a irmã dele, vai contar? Achas que ela vai dizer alguma coisa?
- Eu pedi-lhe que não o fizesse… Eu quero contar-lhe pessoalmente.
- E ela não vai dizer nada? Fazer nada?
- Ela vai tentar convencê-lo a vir ver-me, mesmo no estado em que está. Vai assegurá-lo que para mim nada mudou. Sim, teremos de reajustar algumas coisas, mas a minha vida só tem sido reajustes nos últimos meses. Tudo mudou. Vamos ter uma filha, e se nos amamos não faz sentido estarmos separados. Já estamos separados há muito tempo, não achas?
Os últimos dias de gravidez passaram tão devagar que pareceram semanas. Deborah, arrastava-se pela casa. O peso da barriga, a ansiedade, as contrações. Volta e meia chamava a mãe dizendo que estava na hora, apenas para passado uns minutos perceber que se tratava de contrações normais. Lembrou-se do conselho da médica… Contrações de cinco em cinco minutos. Essas eram as contrações com que se tinha de preocupar.
Passava os dias com a mão na barriga a tentar detetar movimentos da bebé. Entrava em pânico quando não a sentia mexer-se durante algum tempo. Era um sufoco. Estava ansiosa e ao mesmo tempo cheia de medo. Tinha vontade de abraçar a filha e tinha medo do parto. E se as coisas não corressem bem? Gostava de ter tido Fernando ao seu lado. Durante as aulas pré-parto, sentiu, várias vezes, invejas das outras grávidas que eram acompanhadas pelo companheiro. Gostava que ele estivesse presente no parto.
A três dias da data prevista para o parto, Deborah, decidiu ir caminhar. A médica sugeriu que caminhar poderia acelerar o processo e ela não aguentava mais de vontade de ver a filha e, depois disso, Fernando. Caminhou no parque ao pé de casa e voltou passado uma hora. A mãe tinha ido às compras e estaria de regresso em breve. Parou à porta de casa e procurou as chaves. Nunca encontrava as chaves na mala. Sentiu um carro aproximar-se, devia ser a vizinha do lado. Não olhou para trás…
- Precisas de ajuda a encontrar as chaves?
Deborah, não queria acreditar. Aquela voz. Aquele cenário era-lhe familiar. Era deja vu ou era mesmo a realidade? Olhou para trás e viu Fernando, sentado na cadeira de rodas e Deborah por trás a ajudá-lo. Ficou imóvel, sem saber o que fazer. As lágrimas rolaram-lhe pela face. Era ele. Sentiu um líquido a correr-lhe pelas pernas… Caramba, rebentou-se-lhe a alma, rebentaram-se-lhe as águas.

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