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Capítulo 1 - Chegada a Luanda


Capítulo 1 – Chegada Luanda


Deborah, aterrou no aeroporto de Luanda. Tremiam-lhe as pernas de ansiedade. Tinha curiosidade em voltar à terra em que nasceu, contudo tinha algum receio devido aos relatos que foi ouvindo por parte dos seus familiares.
Angola é um país lindo, mas um país quebrado. A guerra civil após o tempo colonial destruiu a sua beleza e o seu povo. Contudo, o povo Angolano tinha a capacidade de estar sempre bem disposto apesar das dificuldades. Ao menos, era isto que lhe fora transmitido vezes e vezes sem conta.
Assim que encontrou as suas malas dirigiu-se à porta das Chegadas. Colocou-se em pontas de pés e procurou o primo Nuno, em todas as direções. O aeroporto estava lotado. Em todo o lado viam-se caras expectantes a aguardar os passageiros do voo. Alguns comerciantes a vender cartões de telemóvel. Seguranças. Pequenas bancas de venda de telemóveis. O balcão de pagamento do parque de estacionamento…
Avistou o primo e dirigiu-se até ele. Abraçaram-se. Já não se viam há algum tempo desde que ele havia deixado Londres para regressar à terra natal. Na realidade, Deborah, nunca pensou que ele se iria adaptar à nova vida, mas o sorriso nos lábios e no olhar e o seu aspeto físico revelavam tranquilidade e bem-estar. Deborah ficou feliz, de ver o primo. Cresceram juntos em Portugal, viajaram para Londres juntos e depois separaram-se quando ele regressou a Luanda.
- Então prima, estás pronta para ver a tua cidade? – perguntou quebrando o abraço.
- Para ser sincera, estou um pouco ansiosa meu primo.
- Respira fundo e vamos a isso. – Nuno, agarrou no carrinho das malas da prima, colocou-lhe um braço à volta dos ombros e dirigiu-a à saída.
Assim que as portas do Aeroporto 4 de Fevereiro de Luanda se abriram, Deborah sentiu a diferença. Um calor abafado e um cheiro característico. Ajustou o nariz, abriu a pequena mala e encheu-se de spray anti mosquitos. O primo abanou a cabeça e sorriu.
- É melhor mesmo te preparares, caso contrário esses mosquitos vão te batizar. Sangue novo…
- Esse sangue já é lhes conhecido meu primo…
- Então ainda melhor, vão dizer: “poxas lembras aquele bife à valenciana que comemos entre 1980 e 1982? Esse bife voltou.”
- Ahahahah, só tu para fazeres-me rir a estas horas.
No carro, Deborah prestou atenção às ruas. Não conseguia descrever o que sentiu ao ver Luanda. A terra vermelha batida, as senhoras com bacias na cabeça e crianças na mão e ao colo, lixo em todo o lado, desordem no trânsito, prédios sem manutenção e superlotados, as famosas zungueiras a vender à beira da estrada, em alguns locais, bairros de lata, miúdos na rua a brincar sujos e esfomeados, e muita, muita gente… A quantidade de pessoas e a velocidade da cidade fez-lhe confusão. Como podia? Como podia haver tanta gente? Contudo apesar disso, sentiu uma nostalgia e apaixonou-se. Surpreendentemente sentiu-se em casa, apesar da revolta e indignação. Sempre lhe haviam dito que Luanda era assim, amava-se e odiava-se ao mesmo tempo.
- Então prima, o que tens a dizer?
- Impressionante… Impressionante…
Nuno, à medida que iam passando por certas zonas ia dando indicações. Mostrou-lhe o prédio onde Deborah nasceu, mostrou-lhe a casa de alguns familiares… Deborah associou algumas zonas a memórias que lhe foram transmitidas e plantadas enquanto criança. Memórias que não sabia se eram dela ou de outra pessoa, mas memórias que reconheceu.
Chegaram a casa do primo e Deborah foi recebida pela família. Conheceu alguns familiares pela primeira vez, ou de quem já não se lembrava, e reencontrou familiares com quem cresceu ou com quem teve bastante contacto quando moravam todos em Portugal ou visitavam a casa da avó que era o ponto de encontro.
No meio de tanto abraço bom, e boa companhia, Deborah esqueceu-se do lixo lá fora, das crianças desprivilegiadas, da miséria da cidade, dos mosquitos sedentos de sangue, do cheiro a gasolina e a calor intenso e sentiu-se verdadeiramente em casa.

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