Capítulo 2 – Fernando
Estava cansado de Luanda… Contudo, não ponderava
voltar para Lisboa, não tão cedo. A relação que tinha com a cidade era de
amor-ódio. Uma das cidades mais caras do mundo e ao mesmo tempo uma das cidades
com o maior nível de pobreza do povo. Um povo cansado, triste, mas surpreendentemente
com um ar feliz. Um povo que aprendeu a amar como se da sua família se
tratasse.
Fernando, nunca teve a mania das grandezas, embora
se sentisse um privilegiado na vida, sempre circulou em todos os meios. Não fazia
como alguns colegas que se fechavam na bolha protegida de Luanda. Fernando, frequentava
todos os locais. Da mesma forma que tomava um bom brunch no Okupuyuka em
Talatona, ou no Café Del Mar na Iha, também gostava de um bom peixe grelhado na
Chicala. Conversava com diretores de grandes empresas assim como conversava com
o povo. Incrivelmente, sentia-se mais vivo quando estava com o povo do que com
os seus colegas de trabalho, enfatados e alheios à realidade.
Contra o conselho dos pais e amigos, Fernando gostava
de explorar a cidade. Entrava sem problemas em bairros de lata e falava com as
pessoas com naturalidade. Apesar dos receios, descobriu que o povo angolano era,
na sua maioria, afável e bem-disposto. Sorriam, apesar das dificuldades, e
tinham sempre algo agradável para dizer. Obviamente que tinha que ter alguns
cuidados, por exemplo, não levava telemóveis carros e não ostentava nenhuma
forma de riqueza. Saia com as suas sandálias, t-shirt e calças de ganga gastas.
Pegava na mota, bem cansada e gasta, que tinha no quintal, e embrenhava-se nos
bairros.
Os amigos chamavam-no “pula atrevido”, mas
recebiam-no com carinho. Aos fins-de-semana, Fernando, gostava de sair da
cidade de Luanda e conduzir à procura das maravilhas de Angola. Apesar de já
ter terminado a guerra civil, em algumas zonas ainda era um pouco perigoso para
um estrangeiro andar “perdido”. Fernando, viajava sempre com o José, o seu motorista
tornando “camba”, ou seja, grande amigo. Conduziam durante algumas horas e Fernando
observava a beleza do país. Os diversos tons de verde, os imbondeiros, o rio
Kwanza… A beleza do país era surpreendente. Muitos dos seus colegas ficavam apenas
por Luanda e nunca tinham coragem de se embrenhar no coração de Angola, não
sabiam o que perdiam.
Apesar de ter uma boa rotina em Angola, o cansaço
já era evidente. Amava aquele país, mas sentia muita revolta com a miséria do
povo. E quanto mais pessoas conhecia, e quanto mais bairros visitasse mais revoltado,
Fernando, ficava. Não podia mudar o mundo, mas quem sabe se adotasse a política
“longe da vista, longe do coração” conseguisse retirar do pensamento as
injustiças da vida que presenciava todos os dias.
Fazia o que podia, ajudava quem podia, mas nunca
era suficiente. Havia sempre mais uma pessoa, e mais uma…
- Não pode mudar o mundo, doutor. Esqueça isso. –
disse José, enquanto conduziam até a Chicala para almoçar.
- Eu sei, José, mas ainda há dois meses ajudei aquele
casal e os filhos. Comprei um gerador, arranjei trabalho para a moça e agora
ela já está grávida de novo? Se mal conseguem sustentar os filhos que têm… Vai
perder o emprego, mas não pensam?
- O doutor sabe como é o povo aqui em Angola.
Gostamos muito de procriar… - deu uma pequena gargalhada.
- Mas ter filhos tem de ser uma decisão pensada,
José. Assim nunca vão sair das dificuldades. Até parece que eu só desajudei
mais…
- Não fica assim, doutor. A vida é mesmo assim.
Esta é a nossa terra.
- Não sei se é a minha terra, José. Cada dia que
passa penso em regressar a Portugal. Regressar onde não veja isto todos os dias...
- O doutor precisa de encontrar uma dama. Pensa
muito. Se estiver ocupado a namorar não vai pensar muito, doutor. Vai queimar
os neurónios.
- Uma dama, só me vai dar dor de cabeça, José.
- O problema é esse. O doutor só procura uma dama.
Se tivesse muitas assim como eu não tinha tempo de ter dor de cabeça.
- Eu acredito que estamos destinados a uma pessoa
só. Muitas vezes vivemos a nossa vida toda à procura. Na volta, já passei pela
minha e nem reparei.
- Pronto, o doutor é que sabe.
Chegaram à Chicala e conduziram quase até ao fundo
da rua. Fernando gostava muito do peixe na Barraca da Dona Maria Ngundo. Gostava
do peixe e da companhia, a Dona Maria era muito simpática e tratava-o sempre
muito bem.
Saiu do carro e dirigiu-se à barraca. Cruzou com um
grupo de pessoas que iam a sair. Dois homens angolanos, que pela indumentária podia
adivinhar que trabalhavam na cidade, e uma mulher angolana baixinha com o
sorriso mais lindo do mundo. Ela sorria e conversava com eles animadamente. Os
olhares cruzaram-se e poisaram um no outro durante uns longos segundos. Fernando
não se conseguiu mover. Reconheceu-a de algum lado. Ela virou-se e continuou a
andar com os amigos, ou algum deles seria marido, namorado… Será? Sorria e
falava em voz alta. Estava à vontade com ela mesma. Aquele sorriso… Viu-a
afastar-se e sentiu uma necessidade enorme de segui-la, dar o seu contacto,
qualquer coisa… Ficou ali parado durante algum tempo a vê-la desaparecer no horizonte,
a entrar no carro, a desaparecer da vida dele. Sentiu o coração apertado,
provavelmente nunca mais a iria ver. Devia ter ido atrás, arriscado, qualquer
coisa…
Aos 42 anos, Fernando, parou no tempo.
- Está tudo bem consigo, doutor? – perguntou José.
- José… Se eu te disser que acabei de passar pela mulher
da minha vida, acreditas?
- Como assim? Aquele grupo que acabou de sair? Aquela
senhora baixinha?
- Eu vi, José. Eu vi a baixinha com o sorriso mais
lindo que possa existir neste mundo. A minha baixinha… Aquela que eu tenho
visto em sonhos… E deixei-a fugir.
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