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Capítulo 3 - Chicala


Capítulo 3 – Chicala

A estadia em Luanda estava a revelar-se um misto de emoções. A situação do país revoltava-a e sentia-se completamente impotente. Queria ajudar, queria fazer qualquer coisa… O que mais a incomodava eram as crianças. O número de crianças em idade escolar “perdidas” pelas ruas de Luanda, malnutridas… Queria acolher todas e levar com ela para Londres. Dar-lhes um lar, carinho, educação…
- Deborah, não podes mudar o mundo. – Comentou o primo Francisco.
- A mudança do mundo começa em pequenos gestos. Ao menos um, ao menos um eu quero salvar. Amar, cuidar dele como se fosse meu… Vou simplesmente pegar e levar. – respondeu emocionada e decidida.
- Não é tão simples assim. Não podes apenas pegar e levar o filho de outra pessoa. A maioria tem mãe, pai… Estão a trabalhar, a lutar para os alimentar e como tal não podem olhar por eles durante o dia.
- Então só lhes estou a fazer um favor… Levo e cuido, menos uma boca para alimentar.
- E a documentação? Vais pegar e levar? Não funciona assim. Se a tua ideia é essa tens de vir com mais calma e iniciar o pedido de adoção. Surpreendentemente em Angola não é tão fácil como pensas.
- Então vou roubar… Há muitas que até me agradeceriam. – disse com lágrimas nos olhos.
- Não sejas assim. Por mais dificuldade que tenham são mães. E custa muito a uma mãe deixar o filho… As mulheres da nossa terra são lutadoras. São guerreiras. Não as subestimes. Melhor, olha para ti. De onde pensas que vieste?
Deborah, pensou nas palavras do primo e admitiu que ele tinha alguma razão. Muitas não levavam os filhos para a escola não por falta de amor ou cuidado, mas por falta de oportunidade. E deviam amar os filhos profundamente como uma mãe que gera e que dá à luz ama.
- Então vou preparar um centro infantil. Um centro onde elas possam ir, aprender, fazer atividades… Um centro de acolhimento onde elas poderão passar o dia e depois ir para as suas mães.
- Isso já parece um projeto à tua medida. Envolve muitos custos, mas com alguma persistência e dedicação poderás conseguir, nem que seja um.
- Podemos unir-nos, fazer angariações. Não devo ser a única a pensar nisto…
- Certamente não serás. Mas não será no espaço de uma semana que vais tratar disso em Luanda. Tens que vir para mais tempo.
- Ah primo, sabes, voltarei em breve. Vim a trabalho e para estar convosco. Estava curiosa de voltar a Luanda. Vou sim, tratar disso. Mas, olha lá, hoje não se come?
- Já está na hora do pitéu? Só pensas em comida. Como dizia a nossa avó: é a comida que vai nos matar…
- Epá sou bisneta da Eva…
- Hoje, vou levar-te a uma barraca da terra. Tens andado dentro da bolha dos protegidos. Vou levar-te a ver a verdadeira Luanda, onde come o povo.
- Até já estou com medo.
- A comida é muito boa. As moscas são nossas companheiras, por isso, não há “maka”. Deixa-me ligar ao Edson e ao Nuno para saber se querem vir almoçar connosco. Vais ser batizada hoje. – Deu a sua famosa gargalhada e ligou para os primos.
- Bem-vinda à Chicala. – disseram os primos em uníssono.
Deborah, apreciou a rua. Uma rua enorme, sem asfalto, completamente esburacada. A rua era comprida, até fazia lembrar as ruas de Oxford Circus que se perdiam no horizonte. De um lado carros estacionados, do outro centenas de barracas, umas atrás das outras. Barracas bem identificadas com o nome das donas ou cozinheiras. As donas, ou funcionários a acenar a todos os carros que passavam mencionando o que havia para comer e a pedir que visitassem o seu estabelecimento. Pequenos grelhadores em frente a cada barraca, buracos com lama, centenas de pessoas a deambular. Um cheiro característico, e um calor abrasador.
Pararam na Barraca da Maria Ngundo. Um letreiro vermelho, fixo entre as grades da barraca identificava o restaurante. Por dentro, várias mesas alinhadas e o restaurante surpreendentemente espaçoso. Aparentemente os primos comiam sempre por lá. Cumprimentaram a dona Maria e sentaram-se confortavelmente nas mesas. Pediram peixe grelhado. A empregada trouxe um tabuleiro com os vários peixes que tinham. Escolheram calafate. À mesa colocou-se banana, mandioca e batata cozida. Para beber, as famosas Cucas… Almoçaram animadamente.
- Então, como está o pitéu?
- O melhor peixe que eu já comi.
- Estás a ver prima, as moscas adicionam o sabor. – riram-se animadamente.
Pediram o multicaixa e dirigiram-se para a saída. Despediram-se da Dona Maria Ngundo. Na saída cruzaram-se com um senhor estrangeiro acompanhado de um senhor angolano. O estrangeiro parecia estar em casa, confortável. Devia ser frequentador habitual da Chicala. Sorria e falava animadamente com o amigo. O estrangeiro parou na entrada para dar passagem. Os primos passaram. Deborah, passou lentamente e cruzou o olhar com o estrangeiro. Parou por momentos. Fixaram os olhares por segundos. Deborah sentiu o coração mudar de ritmo, a boca a ficar seca e um nó enorme na garganta e no estômago. Parou a respiração e respirou conscientemente. Sentiu o seu cheiro. Continuou a andar com o coração acelerado.
Deborah, não olhou para trás, mas seguiu atrapalhada e confusa. Não sabia o que havia acabado de acontecer. O coração mantinha-se acelerado e o nó no estômago e na garganta não se desfazia. Devia ter ficado. Devia ter se apresentado. Devia ter pedido o contacto. Devia… A viagem de regresso seria já amanhã, provavelmente nunca mais iria ver aquele olhar. Aquele olhar profundo… Aqueles olhos azuis que sorriam para ela como que para animar a sua alma.
- Estás bem prima? A comida caiu-te mal? Estás estranha. – perguntou o primo Edson.
- Se eu estou bem? Não sei, primo. Acho que não, mas espero ficar.
- Foi o pitéu? Não gostaste?
- O pitéu estava muito bom, meu primo. Não ligues, coisas minhas. Às vezes perco-me a pensar.
Deborah, fez o resto da viagem com a sensação de que aquele nó no estômago dificilmente iria passar.



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