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Capítulo 4 - Destino


Capítulo 4 – Destino

Fernando, não conseguiu almoçar. Deixou mais de metade do peixe no prato e nem sequer tocou na banana assada, que pediu à Dona Maria especialmente para grelhar.
- O doutor está bem?
- José, não tenho fome. Perdi o apetite.
- Vai dizer que é por causa da dama que saiu daqui.
- Por acaso, é sim. Não me sai da cabeça.
- Mas a moça tinha feitiço ou quê?
- Feitiço não sei, mas aquele sorriso… Aquele sorriso… E tenho a sensação de que a reconheço de algum lado. Não sei… Gostaria de a reencontrar.
- Então pergunta à Dona Maria se a conhece. Por norma, os clientes daqui são habituais.
- Vou perguntar. Vou perguntar, sim.
À saída, Fernando questionou a Dona Maria sobre o grupo que havia saído há meia hora atrás.
- Aqueles três moços e uma moça? – Dona Maria perguntou enquanto ao mesmo tempo fazia gestos para a empregada levar peixe para uma das mesas.
- O Sr. Francisco e o Sr. Edson almoçam sempre cá. O outro moço e a moça nunca tinha visto. São primos acho eu. Eles disseram-me que ela nunca tinha vindo à Chicala, e que a trouxeram para comer o melhor peixe. É claro que eu fiquei contente com o elogio. A moça realmente estava com um pouco de “truques”, está a ver? Aqueles “truques” de quem tem medo de comer a nossa comida. Devia estar com medo de ficar com dor de barriga. Mas, quando começou a comer… Ahaha. Não parou. – Continuou o relato quase em monólogo.
- Ah, e por acaso não sabe onde os posso encontrar? – perguntou Fernando, com um pouco de esperança.
- Acho que um dos moços trabalha na Sonangol, mas não sei qual deles. Mas eles vêm cá sempre, doutor. Quando voltarem vou pedir o contacto. É algo muito importante? Esqueceram alguma coisa?
- Pareceu-me conhecê-los de algum lado. Obrigada. Dona Maria. – respondeu um pouco desanimado. – Vamos embora, José. Já se faz tarde e tenho de voltar para o trabalho.
- Sim, doutor. Vamos.
- Obrigada, Dona Maria. Até à próxima.
- Fica bem, doutor. – Dona Maria, sorriu. – Ah, lembrei-me de uma coisa. Ouvi-os dizer que a moça ia regressar amanhã. Acho que sim… Disseram, sim. Lembro-me bem.
Fernando, caminhou para o carro com o coração ainda mais pesado. Vai embora amanhã, pensou. Provavelmente nunca mais a iria ver. Por que motivo não se apresentou o deu o seu cartão? Se o incomodou tanto, porque é que não se apresentou?
- Doutor. Essa moça deixou-o mesmo enfeitiçado. Nunca o vi assim. – José, comentou enquanto conduzia para a Mota-Engil, empresa onde Fernando trabalhava.
- Deves estar a pensar que estou maluco. Até eu acho que estou maluco. Já passa. Deve ser coisa do momento.
- Mas, se quer mesmo conhecer a moça, porque é que não liga para a Sonangol? A dona Maria mencionou que um deles trabalha lá…
- E pergunto por quem? “Boa tarde, queria falar com o senhor que trabalha na Sonangol e foi almoçar na Chicala.” É isso que eu vou dizer?
- E, porque não?
- E quantos senhores trabalham na Sonangol? A Dona Maria nem sequer deu um nome…
- Então, vá trabalhar e esqueça essa moça, doutor. Hoje é sexta-feira, dia de “nguenda”. Vá sair à noite, divertir-se e amanhã já esqueceu essa dama.
- Tens razão. Até pareço um adolescente. Realmente. A questão é que… Não sei, José… Aquele sorriso… Pronto… Pronto… - Vou deixar de pensar nela.
Fernando, teve dificuldade em trabalhar. Olhava para os desenhos que tinha na mesa e nada fazia sentido. Não conseguiu manter o foco. A linha. Só tinha a certeza que precisava de arranjar uma forma de reencontrar aquela baixinha. Não conseguia pensar noutra coisa. A Dona Maria disse que dois eram clientes frequentes, será que o terceiro era o namorado dela? Marido? Ficou com ciúmes só de pensar. Não, não devia ser, a Dona Maria disse que ela ia regressar. Falou apenas no regresso dela. Se fosse marido a Dona Maria teria dito que eles iriam regressar. Deve ser amigo, irmão ou primo. Sim, deve ser isso. E, regressar para onde? De onde vinha? Para onde ia? O que tinha ido lá fazer? O que fazia?
Não conseguia pensar em outra coisa. Tinha que arranjar forma de a encontrar. Poderia ir até à Sonangol e aguardar por um dos moços à saída. Pela informação da Dona Maria, um deles trabalhava lá. Ou então, poderia ir almoçar à Chicala todos os dias até que os encontrasse novamente. Mas, aí seria tarde porque supostamente ela regressaria já amanhã. O que fazer? Precisava tirá-la da cabeça. Outra opção seria ir até ao aeroporto. Aguardar nas partidas e rezar para a encontrar. Dar o contacto… Contudo, isso era impossível visto ter que viajar bem cedo para Lunda Norte, tinha que ir visitar uma obra.
Meditou por dez minutos e tentou manter o foco. Conseguiu concentrar-se no trabalho. Ficou a trabalhar até tarde, e foi um dos últimos a sair do escritório. Algo estranho, para uma sexta-feira.
José, aguardava em frente ao carro com um sorrisinho estranho nos lábios.
- Assim, com essa cara, já tens dama para hoje, certo, José? – perguntou enquanto entrava para o carro.
- Poxas, até parece que eu só fico contente a pensar em damas, doutor.
- Damas e cuca… Ainda por cima, sexta-feira. Desculpa a demora. Esqueci-me de avisar que podias ir para casa. Atrasei um pouco o trabalho, não conseguia manter o foco…
- A pensar na moça do restaurante…
- Pois. Mas já passou, já passou… Tem de passar. Foi apenas um acaso do destino, se tiver para ser haveremos de nos reencontrar.
- Oh, já passou? Já passou mesmo? Porque se passou vai ser complicado porque a moça vai ligar para si.
- Hey. O que queres dizer com isso? Do que estás a falar?
- Enquanto o doutor ficou no escritório eu fui até à Sonangol. Sentei-me à porta e aguardei o pessoal começar a sair. Fixei bem a cara dos moços e fiquei sentado à espera. Já quando estava a perder as esperanças, até porque estava na hora de vir apanhá-lo, reconheci o moço. Fui falar com ele e disse-lhe que o meu patrão precisava falar com a moça que estava com ele. Que se haviam cruzado na Barraca da Maria Ngundo e que ele tinha a sensação de que se conheciam de algum lado.
- Mas, ele falou contigo? Assim, sem mais nem menos?
- Ele estranhou ao início, mas depois achou engraçado porque disse que a prima disse a mesma coisa. Que tinha a sensação de que se conheciam de algum lado.
- Eu disse onde o Sr. Fernando trabalha, que estudou em Portugal, poderia ser daí que se conheciam…
- E ele? E depois? E o contacto? Ele deu o número dela?
- Não. Ele pediu-me o seu contacto. Dei-lhe o seu cartão de visita. Ele disse que ia dar à prima e que ela se quisesse que ligasse. Não iria dar-me o contacto dela. E ainda confirmou que a prima ia embora amanhã à noite para Lisboa.
- Ela tem o meu número? Ela também sentiu que me conhece de algum lado? Ela vai ligar?
- Estou a ver que ainda fiz pior… Devia ter deixado o destino agir.
Fernando, foi para casa e não largou o telemóvel. Nunca os segundos demoraram tanto a passar. Tinha a cabeça a andar à volta. Ficou feliz quando José disse que ela também o reconheceu. Ele tentava de todas as formas lembrar-se de onde. Achava difícil conhecerem-se porque ele nunca a teria esquecido. Provavelmente, teriam cruzado de relance, algures. Sem prestar muita atenção, sem cruzarem olhares. O que o parou foi o cruzar de olhares… Passou a noite ansioso, com uma dor enorme no estômago. As horas passavam e ela não ligava… Na volta, o primo nem sequer deu o número.
Quando finalmente aceitou que ela não iria ligar, o telefone vibrou. Recebeu uma mensagem: “Olá Fernando. Sou a Deborah. Cruzamo-nos na Chicala. Parece que ambos ficamos com a sensação de que nos conhecemos de algum lado. Eu pessoalmente não me lembro, mas realmente a tua cara não me é estranha. Vou estar com os meus primos no Okupuyuka em Talatona, para o brunch, por volta das 10. Se quiseres aparecer por lá, poderemos sempre matar a curiosidade”.
Fernando saltou de felicidade ao ler a mensagem. Não queria acreditar! Amanhã! Amanhã! De repente, parte da felicidade caiu por terra quando se lembrou que às seis da manhã teria de arrancar com a equipa para a Lunda Norte. Não tinha como adiar. Já estava tudo agendado há semanas. Ia perder a oportunidade… Pensou rápido e mandou mensagem: “Deborah. Agradeço teres-me contactado. Estava aqui ansioso por falar contigo. Infelizmente, amanhã não poderei estar no Okupuyuka. Tenho de ir muito cedo para a Lunda Norte, a trabalho. Contudo, gostaria muito de estar contigo ainda hoje. Diz-me onde estás e posso ir ter contigo. Ou vamos a algum lado, beber um gin. Traz os teus primos. Quero mesmo falar contigo, pessoalmente. Desculpa a intrusão…”
Aguardou, estagnado em frente ao telefone, por uma mensagem. Passaram minutos, muitos minutos, até que finalmente o visor acendeu: “Ok. Vou ver se os meus primos querem fazer alguma coisa. Já te comunico.”
Fernando correu para a casa de banho. Foi tomar um duche. Estava completamente suado, apesar de ter o ar condicionado ligado. Iam encontrar-se. Ia estar frente a frente com a baixinha com o sorriso mais lindo do mundo.
- Deborah… Que nome lindo… - pensou alto e esboçou um enorme sorriso. Afinal essa coisa do destino…

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