Capítulo 5 – Finalmente
Deborah, estava ligeiramente nervosa. Os primos
concordaram em ir jantar ao Mercado do Peixe apenas para a acompanhar.
Francisco, principalmente, não achava muito boa ideia, mas a prima era uma
mulher adulta e a decisão final era dela.
- Realmente, fiquei com a sensação que já o tinha
visto em algum lado, primo.
- Até podes ter visto, mas não o conheces.
- Pois, mas assim vou conhecer.
- Pareces uma miúda. Esses “pulas” são bandidos. Vai
simplesmente brincar com a tua cara. Para além disso, amanhã vais embora. Não
vejo qual o sentido deste encontro.
- Por isso mesmo. Porque vou amanhã embora não há
risco nenhum. Mas seria uma boa história para contar sobre a minha viagem a
Luanda.
- Tu é que sabes, prima. Agora fiquei com fome, vê
se te despachas. Estás aí às voltas com o que vestir.
- Ok. Pronto, pronto… Vou despachar-me. Também já
estou com fome… Mas se a Walkiria estivesse em casa, seria mais fácil. Tenho a
certeza que ajudar-me-ia com o que vestir.
- Eu já dei uma ajuda: põe roupa!
Riram-se e Deborah foi finalmente terminar de vestir-se.
Fechou a porta do quarto e tirou a roupa. Olhou-se ao espelho e sentiu-se
ligeiramente acima do peso. Já há algum tempo que não tinha cuidado com a sua
aparência física. Tinha de ter mais atenção, afinal de contas, já não era nova
e a idade começava a pesar e a notar-se. Contudo, sentia que apesar do seu
metro e meio de altura e de algumas gordurinhas extras na zona abdominal, não
estava mal de todo. A gordura estava proporcionalmente espalhada pelo corpo e o
peso extra tinha beneficiado o tamanho dos seios. O corpo em forma de ampulheta
beneficiava-a. Enfim, não estava mal de todo. Nada que um mês de ginásio não
conseguisse resolver. Reparou numa pequena ruga no canto do olho, mas para a
sua idade não era nada alarmante, até porque não aparentava a idade que tinha.
Fixou os olhos no cabelo e decidiu o que fazer com a sua carapinha. Não sabia se
havia de a deixar solta na totalidade ou apanhar ao alto, ou de lado… Fazer
algo diferente…
Depois de revirar a mala de viagem e torcer o nariz
para algumas peças de roupa, decidiu-se pelas calças de ganga azuis e por um
top branco. Colocou os ténis brancos e pronto. Nunca foi de preocupar-se muito
com o que haveria de vestir e não haveria de mudar agora por ninguém. O melhor mesmo
seria dar ao Fernando a versão normal e real.
Estava nervosa… Muito nervosa. Não se lembrava da última
vez que tinha marcado um encontro com um homem. Mesmo que os primos a
acompanhassem não deixava de ser um encontro, e isso assustava-a um pouco. O
melhor seria ser o mais natural possível. Não valia a pena estar a sofrer por
antecipação. Amanhã já regressaria para Lisboa e este encontro não iria passar
disso mesmo: um encontro.
- Já estás pronta, prima? – perguntou Francisco. – O
Nuno e a Luísa já chegaram e estamos todos muito “fobados”. A fome aperta,
Cinderela. Vamos embora.
- Vamos, vamos. – Saiu do quarto. – Vamos.
- Oh, tanto aparato para umas calças de ganga? Estou
contente, estava com medo de que quisesses levar aquele vestido que não tapa
nada. Ias matar o homem com um ataque de coração.
- Deixa-te
de parvoíces. Nem sei porque é que trouxe aquele vestido. – virou-se para a esposa
do primo – Luísa, minha prima. Ainda bem que vens connosco, sinto-me mais segura
assim.
- Eu não podia perder um jantar destes. Encontro daqueles
que só se vêm em livros. – Abraçou Deborah e deu-lhe um beijinho – Vamos, estás
linda. Gosto de ver-te assim, simples, natural. És linda assim mesmo.
- Obrigada. Agora vamos comer que até eu já não
aguento mais.
Quando chegaram ao mercado do peixe, Deborah sentiu-se
ainda mais ansiosa. Subiram as escadas e optaram por jantar lá fora. A noite
estava muito agradável. Procurou Fernando com o olhar, mas não o viu em lado
nenhum. Optaram por sentar-se lá fora.
- Vais ver que agora o tal Fernando decidiu não
aparecer. – disse o Francisco. – Eu bem disse que isso não era boa ideia.
- Se não aparecer não apareceu, ao menos vamos
comer um bom peixinho. E temos aqui a prima Luísa connosco, que eu provavelmente
já não iria ver mais antes de me ir embora.
- Também é verdade, mas já devia estar aqui. Se
estava tão ansioso por ver-te deveria ter chegado a horas.
- Não sei primo se já reparaste, mais ainda não são
20:30. A hora combinada foi às 20:30. Nós é que nos antecipamos.
- Já estás a defender o homem. – Nuno, sorriu. – O Francisco
tem razão já deveria cá estar. Homem é que tem que esperar pela garina e não o
contrário.
- Muito gostam vocês de agitar. Isso tudo porque
estão com fome. Deixem a minha prima em paz. – Defendeu Luísa.
- Peçam entradas para acalmar o estômago não vamos
comer antes do Fernando chegar, certo?
- E ainda vamos ter que esperar para comer? Já não
gosto desse Fernando. Já não gosto nada dele… - reclamou Francisco.
Deborah ia responder, quando reparou que o Fernando
havia acabado de chegar. Viu-o à distância e o coração começou a bater descompassadamente.
Sentiu, novamente, um nó no estômago. Arrependeu-se de ter-se vestido de uma forma
tão simples, de repente, teve a sensação de que o queria impressionar. Era alto,
devia ter por volta de 1,80m, e estava em excelente forma física. Também estava
simples, umas calças caqui e uma camisa de manga curta. Ténis brancos. O cabelo
castanho claro, com algumas mechas brancas, estava ligeiramente penteado para
trás com uma pequena ondulação no topo. Os olhos, grandes, azuis eram o que
mais chamavam a atenção. Tinha a pele ligeiramente bronzeada, o que atribuía um
brilho natural. E o sorriso… Os olhares cruzaram-se novamente e Fernando parou
por instantes. Deborah, viu-o aproximar-se e estava confusa com o que lhe
estava a acontecer. Não sabia por que motivo tinha acabado de perder as forças
nas pernas.
- Boa noite. – Fernando cumprimentou e sorriu para
todos. Virou-se especialmente para os primos. – Obrigado por terem acedido em acompanhar
a Deborah.
-Ora essa. - Nuno quebrou o gelo. – Senta-te estávamos
mesmo à tua espera para fazermos o pedido. A fome está a apertar. Senta-te.
Fizeram as pequenas apresentações e Fernando
sentou-se na cadeira vazia em frente a Deborah. Olhou-a ternamente nos olhos. Levou
a mão, nervosamente, ao cabelo e sorriu para ela.
- Boa noite, Deborah. Obrigado por aceitares o meu
convite. Fico mesmo muito feliz que o tenhas feito.
- Boa noite, Fernando. – Deborah não conseguiu
dizer mais nada por momentos. Ficou parada a observar o homem que tinha à sua
frente. De repente, desejou que a viagem a Luanda nunca mais terminasse e que aquele
jantar não tivesse fim. – Nós já estávamos a pensar onde iriamos comer e olha decidimos
juntar o útil ao agradável. – Disse por fim.
- Útil e agradável. Sem dúvida. – Fixou os olhos nela
e sorriu nervosamente. – Já vi que estamos todos com fome. O que se come por
aqui. Estou capaz de comer um lobo. – Falou animadamente com o grupo.
- Assim é que se fala. Já vi que és dos meus. –
respondeu o Francisco.
Fizeram os pedidos e falaram animadamente durante o
jantar. Fernando ocasionalmente trocava olhares cúmplices com a Deborah, mas
fez questão de se integrar no grupo. Decidiram caminhar na marginal após o
jantar. Os primos caminhavam à frente e Deborah e Fernando gradualmente foram
ficando para trás. Fernando, timidamente, deu-lhe as mãos e virou-se para ela
com o olhar mais terno do mundo.
- Finalmente, sós. Finalmente…
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