Capítulo 6 – Destino
O sorriso daquela mulher era algo simplesmente extraordinário.
Fernando, estava completamente enfeitiçado por Deborah.
Quando chegou ao restaurante não queria acreditar
que estava realmente a vê-la novamente. Tinha perdido as esperanças até José
ter decido armar-se em cupido. Estava deslumbrado pela simplicidade dela. Por norma,
as mulheres com quem saia, produziam-se muito para o impressionar. Deborah vestiu-se
de uma forma simples e elegante. Um leve tom de vermelho nos lábios carnudos, e
provavelmente deliciosos, o cabelo solto (algo que muitas mulheres africanas
evitavam)… Perfeita. Simplesmente, perfeita. Naquele momento, jurou que tinha
que conhecer mais sobre essa mulher.
Durante o jantar, tentou dentro dos possíveis, dar
atenção a todos. Até porque seria complicado falar com ela diretamente com um
grupo tão grande. Sugeriu um passeio pela marginal para ajudar na digestão como
pretexto para prolongar a noite e poder falar com Deborah de uma forma mais “privada”.
Inconscientemente deu-lhes as mãos. Sentiu-se um colegial que fica contente só
por dar as mãos à namorada… Não estava à espera da energia que se trocou com
aquele gesto. Sentiu como se tivesse sido ligado à corrente.
- Deborah… Fico mesmo muito feliz por teres ligado
para mim. Estava com medo de que nunca mais nos encontrássemos…
- Eu confesso que fiquei surpreendida e curiosa
quando o meu primo deu-me o teu contacto e contou-me como o conseguiu.
- Sim, o José, meu motorista e amigo, decidiu
intervir depois de ver-me desconcentrado à hora do almoço… Não consegui comer
após aquele nosso breve encontro.
- Nós apenas nos cruzamos, Fernando. Que efeito foi
esse que eu causei ao ponto de tirar-te a fome?
- Se eu disser que senti uma ligação imediata? Se
eu disser que sinto que já te havia visto em algum lado? Se eu disser que senti
uma necessidade enorme de falar contigo? Acreditas em mim?
- Eu… - Deborah não queria admitir, mas optou por
ser honesta desde o início. – Eu confesso que senti algo parecido. Por isso
liguei. Sinto que já nos havíamos visto, só não consigo dizer onde ou quando…
- E achas normal esta sensação? Achas normal, isto?
Acredita que é a primeira vez que sinto algo assim.
- Deves dizer isso a todas as mulheres que conheces…
Fernando parou abruptamente de caminhar e olhou-a
diretamente nos olhos.
- Deborah, vamos fazer um acordo, entre os dois? Podemos
ser sempre honestos um com o outro, por favor? Não me passaria nunca pela
cabeça dizer-te algo que não fosse verdade e peço-te que faças o mesmo comigo.
- Ok, Fernando. Gosto muito disso. Prefiro assim.
Honestidade, sempre. Assim sendo vou responder-te honestamente que não acho
normal e que estou muito confusa com o que estou a sentir. Sinto uma ligação
muito forte e nem sequer te conheço…
- Isto é só o começo. Vamos começar pelo início. O
meu nome é Fernando Manuel Costa Borges, nasci em Luanda no dia 28 de outubro de
1978, sou filho de pais portugueses e cresci em Portugal. Os meus pais regressaram
para Lisboa quando se deu a independência de Angola. Sou licenciado em Engenharia
Civil, pelo ISEL, e exerço a minha profissão aqui em Luanda. Não tenho filhos, não
sou casado e nunca fui. Gosto muito de comer, o meu prato preferido é peixe
grelhado com banana assada e a minha sobremesa favorita é cheesecake de morango.
Ouço todo o tipo de músicas dependendo da minha disposição. Gosto de ler, gosto
muito de viajar e a melhor altura do dia, para mim, é o nascer do sol. Pronto.
Já me conheces…
- Bem, que relato extraordinário. Vou ver se
consigo acompanhar-te. O meu nome é Deborah Patrícia de Paiva Miranda, nasci em
Luanda no dia 13 de novembro de 1980, sou filha de pais angolanos (com uma veia
portuguesa) e cresci em Portugal. Os meus pais mudaram-se para Lisboa quando se
deu a independência de Angola. Sou licenciada em Engenharia Química, pelo Instituto
Superior Técnico, e exerço a minha profissão em Londres, onde moro há alguns
anos. Não tenho filhos, não sou casada e nunca fui. Comer é a minha perdição e
não consigo resistir a um bom bife com batata frita, a minha sobremesa favorita
também cheesecake de morango. Também ouço todo o tipo de músicas. Não vivo sem
ler, viajar e sou perdida de amores pelo nascer do sol…
- Introduções feitas… Já nos conhecemos. Não posso
deixar de reparar que temos um percurso muito semelhante. Quando os teus pais
foram morar para Portugal, para onde foram?
- Eu cresci em Odivelas, na Ramada.
- Só podes estar a brincar comigo, Deborah.
- Sério. Porquê?
- Eu cresci no Pomarinho.
- Não acredito… Sério?
- Sim, sério…
- Estás a dizer que morávamos um ao lado do outro…
- Pelos vistos… E diz-me, Deborah, quando foste
para Londres. Estive por lá a estudar por uns tempos.
- Estou lá há 10 anos…
- E onde moras? Em que zona?
- Stratford.
- Deixa de brincar comigo… Stratford? Eu, há 8 anos
passei uma temporada de 2 anos em Leyton.
- Estás a dizer que crescemos a 500 metros um do
outro, e que durante dois anos apanhamos o mesmo metro em direção à cidade e
eramos quase vizinhos?
- Sim… Estou a dizer isso… Estou a dizer, Deborah,
que nos temos desencontrado a vida toda, até hoje. Andamos desencontrados a
cruzar os mesmos caminhos, as mesmas ruas… Fizemos o mesmo percurso…
- Isto são coincidências de mais, Fernando…
- Não, não são coincidências, Deborah. É o destino.
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