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Capítulo 7 - Filme Cor de Rosa


Capítulo 7 – Filme Cor de Rosa

As coincidências eram muitas. Como era possível? Como é que viveram a poucos metros de distância durante tanto tempo e nunca se haviam encontrado? E, assim, de repente encontram-se em Luanda, no local onde ambos nasceram, mais precisamente na Chicala? Não acreditava em destino, mas pelo percurso de ambos parecia que mais cedo ou mais tarde tinham que se conhecer. Será que era de algum desses sítios que o reconhecia? Será que tinha retido o seu rosto naqueles momentos repentinos em que vemos algo pelo canto do olho, mas não prestamos atenção?
O olhar de Fernando incomodava-a. Incomodava-a porque praticamente a penetrava. Sentia que ele conseguia ler a sua alma. Era um olhar hipnotizante. Poderia ficar horas com os olhos poisados no dele e dizer-lhe todos os segredos que ele quisesse roubar.
- És um mistério para mim, Deborah. – Fernando interrompeu-lhe o pensamento.
- Sou um livro aberto, não tenho nada de misteriosa.
- Pergunto-me como é que continuas solteira…
- Eu poderia perguntar-te a mesma coisa.
- Eu? Para ser sincero, já tive umas quantas namoradas, uns quantos romances, mas nunca uma mulher interessou-me para além de um mero namoro. Sempre fui muito próximo à minha mãe e passava tardes a ver filmes com ela. E obviamente os escolhidos por ela, que eram sempre filmes românticos. Então cresci a acreditar que o verdadeiro amor é aquele que dá-te a volta ao estômago, que faz-te sentir sufocado.
- Não posso acreditar que a definição de amor de um homem adulto e maduro com tu venha dos filmes cor de rosa.
- E por que não? Os homens têm de ser todos uns insensíveis, é isso?
- Não digo insensíveis, mas mais sensatos. Uma relação não pode ser definida com apertos no estômago e uma sensação de sufoco. Esses filmes são o que mantêm as mulheres infelizes ao criarem expectativas irreais por parte dos seus companheiros.
- E os homens não? Os homens também criam expectativas sobre a mulher ideal. Isso também torna muitos infelizes. Eu devo ser um deles, visto acreditar nessas histórias da carochinha.
- Não… De certa forma, essa tua forma de pensar diz muito sobre ti e explica o teu olhar.
- Percebi que fugiste à minha pergunta. Já sabes que sou produto de filmes cor de rosa, e como tal um infeliz à espera de algo irreal. E tu?  - Fernando, disse em tom de brincadeira não se atrevendo a explicar a sensação de ardor no peito que sentia ao estar ali, ao pé dela.
- Sabes? Sou muito boa a fugir a perguntas que não sei como responder. Mas, visto que explicaste as tuas razões vou dizer-te as minhas. Simplesmente nunca aconteceu. Apenas tive um namorado, e a relação não correu bem. Dei por mim a fazer planos de futuro enquanto ele apenas pretendia divertir-se. Contudo, sou sincera que os meus planos tinham por base o que era expectável por parte da sociedade: casar, comprar casa, ter filhos… Acho que até o meu relacionamento iniciou-se de uma forma pragmática. Estava na faculdade, todas as minhas colegas tinham namorado, se eu quisesse cumprir o plano de casar e ter filhos após a faculdade tinha que arranjar um namorado, certo?
- Então apanhaste o primeiro que te apareceu à frente? Vais dizer-me que não tinhas sentimentos por ele?
- Apanhei o primeiro que falou comigo. – Deborah sorriu. – Por algum motivo eu sempre intimidei o sexo oposto. Até tenho pena do João, não sei como teve coragem de falar comigo. Deve ter sido uma aposta.
- Não acredito! Tu? Nenhum rapaz falar contigo? Realmente conheceste os homens errados.
- Acredita. Consigo ser verdadeiramente assustadora. – Deborah, fechou o semblante por uns instantes e cerrou os dentes.
- Credo! Com essa expressão nem eu teria coragem de aproximar-me. Tinha fugido do restaurante a sete pés. – disse em tom brincalhão.
- Vês? Ahahah, o meu escudo protetor.
- Estou a brincar. A mim não me assustas, Deborah. Vejo muito para lá disso quando olho para ti. E fico feliz que poucos se tenham atrevido a aproximar-se, provavelmente não estaríamos aqui se tal tivesse acontecido.
- Ai não?
- Não acredito que algum homem que tenha o mínimo de sensatez fosse deixar-te fugir.
- Já pensaste que a falta de sensatez pode ser da minha parte?
- Já percebi que usas isso como escudo. Não te permites sentir. Tomas decisões lógicas isentas de afeto e emoções. Estás a proteger-te.
- Do quê? A proteger-me do quê, senhor psicólogo?
- Estas a proteger-te desses filmes românticos, nos quais secretamente, bem dentro do teu íntimo, acreditas. E tens medo de apaixonar-te e perder a racionalidade.
- Estás enganado, Fernando. Eu não acredito nessas coisas, a sério. Não acredito mesmo.
- Então explicas-me porque tenho o coração acelerado? Explicas-me porque dói-me o peito ao olhar para ti? Ao estar contigo?
- Deves estar a ter um AVC. – Aliviou a tensão com uma piada.
- Deborah, a sério…
- Fernando, então queres dizer-me que eu sou a mulher que tens estado à espera, é isso?
- Decididamente, sim.
- E descobriste isso em menos de 12 horas?
- O amor é mesmo assim. Quando sabemos, sabemos.
- Neste momento estamos a viver uma das tuas histórias cor-de-rosa?
- Sim. A melhor de todas, a nossa.
- Confesso, que sinto-me confusamente atraída por ti, Fernando. Mas, daí a acreditar nisso…
- Sabes, Deborah. Até gosto que não acredites, nisto, sabes porquê?
- Não, mas estou curiosa.
- Porque vou ter uma vida inteira para te provar.
Com isto, Fernando aproximou-se, baixou-se ligeiramente e pegou-lhe no rosto com ambas as mãos. Encostou a testa, e observou-a durante alguns segundos. Tocou-lhe de leve nos lábios, e aproximou-se ainda mais. Beijou-a com mais ternura, com calma e de leve várias vezes. Apertou os lábios contra os dela com mais pressão e invadiu-lhe a boca com a língua, num toque suave.
Deborah, não queria que aquele beijo terminasse. Aproximou-se mais dele como se quisesse fundir e não largar nunca mais. Se estava dentro de um filme romântico, não queria que ele terminasse nunca. Afinal, sabia tão bem ser a personagem principal.

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