Capítulo 8 – Desafio
Um belo desafio… Fernando, soltou Deborah do beijo
e olhou-a novamente nos olhos. Queria ler-lhe a alma. Gostava de saber se ela
sentiu o que ele sentiu? Gostava de saber se aquele beijo havia dito a mesma
coisa a ambos. Mas, será que se tinha precipitado? Deborah, não parecia zangada.
Deixou-a respirar e aguardou a sua reação. Surpreendeu-se quando ela
encostou-se, ergueu ligeiramente o pescoço e entreabriu os lábios. Beijou-a
novamente. Susteve a vontade de a beijar sofregamente. Fez um esforço para
manter o beijo o mais calmo possível, tentou parar no tempo…
- Estou enfeitiçado por ti, Deborah. – disse quando
finalmente a libertou.
- Não sei o que isto é, mas… Beija-me… Beija-me
novamente… Só mais uma vez, quero ter a certeza.
Fernando, acedeu e beijou-a. Desta vez soltou-se e beijou-a
apaixonadamente. Com mais força, com mais fome… Queria mais… Afastou-se. Não
podia ir mais longe.
- Os teus primos vão começar a questionar sobre
nós.
- É verdade, esqueci-me que estávamos a caminhar em
conjunto. Já devem ter chegado ao final da marginal e estar no caminho de
regresso. Paramos aqui, assim…
- Então vamos aguardar que eles retornem e nos
apanhem. Assim temos mais um tempinho. Vem, vamos sentar-nos no banco.
- Sim, claro. – Deborah, agradeceu a possibilidade de
sentar-se, visto que mal sentia as pernas. – Viajo amanhã… - continuou em tom
triste. – Vamos tomar o pequeno almoço juntos e falar mais um pouco?
- Infelizmente, não posso. Não posso mesmo. – disse
quase desesperado.
- Ah, está bem. – respondeu desiludida e a
questionar-se o motivo da recusa. Surpreendeu-se com o sentimento de desilusão.
- Tenho que ir muito cedo visitar uma obra, fora de
Luanda. Esta viagem está organizada há muito tempo, não tenho como faltar.
- Então, é isto? Ficamos por aqui… Já não nos
iremos ver mais. Tenho pena que não nos tenhamos cruzado antes…
- Não, Deborah. Não ficamos por aqui. Eu não vou
permitir que fiquemos por aqui. Encontrei-te, não vou deixar-te ir. Quero
conhecer-te melhor, Deborah. Quero mesmo fazer parte da tua vida.
- Adoro o romantismo na tua proposta, mas não vejo
como é que iremos conseguir tal coisa quando ambos moramos em continentes
diferentes. – O pragmatismo voltou e Deborah, irritou-se por ter-se deixado
levar pelo momento.
- Eu vou ter contigo daqui a duas semanas. Tiro uma
semana de férias e vou a Londres ter contigo. Prometo.
- Mesmo que o fizesses, como poderíamos manter
algum tipo de relação com tanta distância entre nós.
- Demorei uma vida a encontrar-te, Deborah. Não vou
permitir que saias da minha vida sem sequer tentar. Isto é, se me permitires,
claro.
- Fernando, analisa a situação. Vê as coisas do ponto
de vista lógico. Isto nunca poderia resultar.
- Lógica? Queres usar a lógica, Deborah? – perguntou
um pouco exasperado. – Então, logicamente, explica-me o que acabou de se passar
entre nós.
- Simples. Somos dois adultos, descomprometidos,
cruzamo-nos e sentimos uma atração química. Acabamos por estar juntos e confirmamos
esta atração.
- Atração química? Então tudo isto resume-se a
atração química?
Fernando, colocou a mão da Deborah sobre o seu
peito e permitiu-lhe sentir o bater descompassado do seu coração. Olhou-a nos
olhos e com a outra mão puxou a sua face até ele. Beijou-a carinhosamente. Soltou-a
a custo.
- Atração química, Deborah? Então explica-me porque
sinto-me tão desesperado neste preciso momento em que dizes que não nos darás
uma oportunidade?
Deborah, ficou sem palavras e deixou-se levar pela
emoção. Desta vez quem o beijou foi ela. Queria mais, queria muitos mais.
Estava irritada porque permitiu-se sonhar. Onde estava com a cabeça? Que
sentimento era este? Paixão? Será que tudo se resolveria se dormissem juntos e
passasse a vontade? Será que era só uma atração sexual que os unia?
- Dorme comigo esta noite. – Deborah, disse sem pensar.
- Não, Deborah. Não podemos. – Fernando recusou
para espanto de Deborah. – Não vamos resumir aquilo que sentimos com uma noite
de prazer. Sei que estás a pensar que é apenas atração sexual, tesão… Estás a
pensar que se dormirmos juntos vai passar esta energia. Mas, não, Deborah… É
mais do que isso. Deixa-me provar-te. Deixa-me ir ter contigo daqui a duas
semanas. Permite-me isso, ao menos.
- Não sei onde estava com a cabeça, deixei-me levar…
- Não me entendas mal. Acredita que o que eu mais
quero neste momento é desbravar o teu corpo e perder-me em ti… Acredita… Quero
tanto… Mas, quero muito mais conhecer-te. Fazer parte da tua vida. Não quero
que a nossa história se resuma a uma noite de prazer em Luanda.
- Eu entendo o que me dizes, Fernando, mas, sinto
que se não aproveitarmos hoje, não haverá amanhã.
- Se tu me permitires haverá… Se tu permitires que
eu vá ter contigo… Irão existir muitos amanhãs.
- És um romântico, Fernando. Eu nunca vi uma relação
à distância funcionar.
- E eu nunca senti o meu coração bater assim. E não
sou ingénuo, Deborah, sei que estás a sentir o mesmo. Não consegues decifrar o
que é porque insistes em não acreditar no destino, mas sei que estás a sentir o
mesmo.
- Confesso… Combinamos ser honestos um com o outro,
certo? Assim sendo, confesso que nunca senti isto que estou a sentir agora…
- Então deixa-me provar-te que a nossa relação
estava escrita nas estrelas. Nem que seja para permitir que acredites no
destino.
- As escolhas são aceitar e estar contigo daqui a
uns dias ou recusar e nunca mais ver-te. Acordar amanhã e acreditar que isto
não passou de um sonho ou de um filme que eu vi na televisão.
- Qual é a tua escolha, Deborah? Seja qual for a tua
decisão eu só terei que aceitar – disse com o coração apertado.
- Eu escolho-te a ti… Escolho o caminho da incerteza…
Estou cansada de pensar em tudo o que faço.
- Não te vais arrepender, prometo. Daqui a uns dias
estaremos juntos, com mais tempo para nos conhecermos melhor e explorarmos este
sentimento.
Fernando, beijou-a uma vez mais durante o que
pareceu uma eternidade. Queria tanto que este momento nunca terminasse…
- Uhm… - interrompeu o Francisco. – Prima, estamos de
regresso a casa.
Fernando saiu do transe e libertou Deborah.
Levantaram-se surpreendidos e sorriram envergonhadamente.
- Desculpem… - respondeu com uma voz sumida. – Sim,
claro. Está na hora…
Despediram-se com um beijo breve e Fernando, observou
a mulher da sua vida a afastar-se com os primos. Nunca na vida sentiu um vazio
tão grande. Seria um desafio ganhar aquele coração. Fernando, nunca teve medo de
desafios, mas acabara de ganhar um medo enorme à solidão.
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