Skip to main content

Capítulo 10 - Todo o Tempo do Mundo


Capítulo 10 – Todo o tempo do Mundo

Amaldiçoou o trabalho. Fernando adorava o que fazia, mas aquela viagem roubou-lhe algumas horas que poderia ter tido com Deborah. Queria ser ele a levar-lhe ao aeroporto. Queria despedir-se dela olhando-a nos olhos. Queria dizer-lhe o que sentia. Entretanto, estava ali, no meio da lama e sem rede no telemóvel. Maldito fim do mundo! Era para isso que lá estavam… Estava a supervisionar a obra, as escavações. Em breve aquela zona teria eletricidade, telefones… No entanto, precisava disso naquele momento. Precisava falar com ela.
Provavelmente, Deborah, estaria a questionar-se sobre o que aconteceu entre ambos. A encher-se de razões pelo qual deviam deixar as coisas por ali, onde ficaram. Sentiu uma dualidade dentro dela. Sentiu o combate entre o que estava a sentir e entre o que ela acreditava. Não iria ser fácil fazer-lhe acreditar no que estava a acontecer entre ambos.
Fernando, tinha passado a vida toda à espera dela. Não era nenhum miúdo, sabia bem o que já havia sentido antes por mulheres e o que sentia por ela. Nenhuma mulher havia tocado na sua alma. Deborah, como que deixou uma tatuagem bem marcada com o nome dela na sua alma. Ou melhor, parece que ela trouxe com ela a chave para o pedaço da alma que ele nunca conseguiu aceder. Ao ponto de não a querer levar para a cama? Desde quando isso havia acontecido com ele? As relações anteriores começavam na cama e terminavam por causa da cama… Fartava-se muito facilmente… Não havia ligação nenhuma para além do desejo sexual. Tentou muitas vezes, tentou ir além do sexo… Acabava sempre por quebrar corações e criar inimigas para toda a vida.
Deborah… Aquele sorriso… A surpresa quando José contou o que havia feito… A alegria quando recebeu a mensagem dela… A sensação ao vê-la no restaurante… O desespero quando a beijou pela primeira vez… Aquele sorriso… Apesar de ser uma mulher, Fernando via a inocência de Deborah no seu olhar. Inocência e dúvida… Não a poderia magoar, não a queria magoar. Queria protegê-la, sempre. Queria dizer-lhe que com ele ela poderia criar expectativas. Queria estar com ela…
Tinha que viajar o quanto antes. Duas semanas era muito tempo. Duas semanas era tempo demais, ele próprio não iria aguentar. Deborah, tinha razão… Esta relação à distância seria uma loucura. Não ia resultar de forma nenhuma. Ele precisava de estar com ela. Ele queria estar com ela… Ele tinha de estar com ela.
Obviamente que não conseguiu dormir. Passou a noite a analisar a sua vida, os momentos que o tinham levado até ali. Era curiosa a vida. Como era possível que ambos tivessem um percurso tão semelhante, tivessem vivido tão perto um do outro e nunca se tenham cruzado? Ou será que se cruzaram em miúdos e era daí que a reconhecia?
Tiveram tantos anos para que esse encontro acontecesse. Porquê agora? Será que só agora estariam preparados para estar juntos? O que os separou e manteve tão próximos durante tanto tempo? Qual era a linha do destino? Abençoou o regresso a Luanda. Assim que chegou a casa correu para o chuveiro, por algum motivo não queria falar com Deborah ao telefone todo suado, como se ela fosse sentir que ele não estava limpo… Coisas da cabeça dele… Deitou-se na cama e mandou uma mensagem. Pensou em ligar, mas ela poderia estar ocupada, a descansar…
Ficou a olhar para o visor… Pensou em mandar nova mensagem, mas não quis pressionar. Então ficou ali, a olhar para o visor. Não conseguia dormir… Estava exausto, mas não conseguia dormir. Viu a entrada da chamada dela… Sorriu que nem um adolescente e agradeceu a Deus por aquela chamada.
- Olá Fernando…
- Olá Deborah… Sabe tão bem ouvir a tua voz, meu amor. – Meu amor? Meu amor? Palerma, pensou. - Fizeste boa viagem a Lisboa?
- Na medida dos possíveis sim. Não consegui descansar, tinha a cabeça a andar a roda. Mas, acabei por seguir direto para Londres. Queria vir para casa.
- Entendo. Não gostas de voar?
- Por acaso, não gosto. Mas, estavas tu a dançar-me na cabeça.
- Ah… Se eu disser que não consegui trabalhar como deve ser? Fiz tantos erros, tive que refazer tanta coisa… Não me sais do pensamento, não me sais do coração.
- O que nos está a acontecer, Fernando?
- Eu sei que é difícil para ti acreditares nisto, mas estamos simplesmente a viver o nosso destino. Nós tínhamos que nos encontrar nesta vida, Deborah. Não sei o porquê de não nos termos encontrado antes, se calhar não estávamos preparados. Se calhar, se nos encontrássemos quando estávamos a crescer não iriamos nos reconhecer desta forma. Não sei, Deborah. Só sei que eu tenho procurado e esperado por ti a minha vida adulta toda.
- Não consigo acreditar nisso da mesma forma do que tu, mas acredito que existe aqui uma força maior do que nós, do que eu. Esta… Esta não sou eu… Confesso que estou com medo, assustada. Luto internamente comigo mesma. Se eu contar isto às minhas amigas elas não vão acreditar.
- E preocupa-te o que as outras pessoas pensam, Deborah?
- Não, nem por sombras. Simplesmente não vão acreditar porque esta não sou eu, com o estômago a dar voltas…
- Então, vou sugerir que deixemos de questionar. Vamos viver isto, ok? Vamos simplesmente viver. Eu tenho a certeza de que quando formos velhinhos, vais olhar para mim um dia e dizer: sim, estava escrito.
- Vamos viver, sim. Mas, como? À distância?
- Não te questiones como. Vamos deixar acontecer. Eu prometo, Deborah, que serei sempre honesto contigo. Eu prometo que nunca deixarei nada por dizer, mesmo que saiba ou sinta que não vais gostar…
- Não faças promessas que não podes cumprir, Fernando.
- Sobre a minha conduta eu posso prometer, Deborah. Acredito que honestidade e comunicação são a chave… Por isso, tive algumas relações que não terminaram bem. Porque fui honesto em relação aos meus sentimentos, ou melhor, falta de… Muitas mulheres apenas querem que digas o que elas querem ouvir… Eu prometo dizer sempre aquilo que eu sinto.
- Percebo. Concordo e prometo fazer o mesmo.
- Chegamos a um acordo, certo? Agora diz-me como estás? Como estão as coisas em casa? Como está o tempo por aí? Conta-me tudo, quero saber de tudo o que se passa contigo… Até as coisas mais sórdidas… Ahaah
- Queres mesmo saber tudo? Cuidado com o que queres saber…
- A verdade nua e crua, sobre quem é a Deborah Patrícia de Paiva Miranda. Conta-me como é a tua casa. Quem são as tuas amigas. O que fazes durante o dia, qual a tua rotina?
- Queres saber demais, não achas?
- Nada que venha de ti, será algum dia demais. Tenho uma vida toda para te conhecer, mas preciso ficar a par do que aconteceu até antes de te conhecer. Quem és, na verdade, não apenas onde moraste, o que fizeste…
- Isso é uma história muito comprida, Fernando.
- E? Que eu saiba temos todo o tempo do mundo…

Comments

Popular posts from this blog

Capítulo 30 - Faith

Capítulo 30 – Faith             Entre a correria para o hospital, as contrações, as dores, os gritos e a confusão na sala de emergências, Deborah e Fernando mal tiveram tempo para falar.             Fernando, estava a tentar processar a informação. Grávida. Hospital. Parto. Filha. Pai. Estava a horas ou minutos de ser pai, e só agora tinha acabado de saber. Não sabia se ficava chateado com Deborah, ou com ele próprio. Perdeu as consultas, as ecografias, o primeiro movimento… Perdeu a oportunidade de passar a mão na barriga de Deborah e de falar de mansinho com a filha. Valia a pena procurar culpados? Deborah, ainda tentou falar com ele, ele nem por isso. Usou a cadeira de rodas como uma desculpa para não a encarar. Na realidade, tinha medo da rejeição. Não era fácil adaptar-se à nova realidade e pedir a Deborah que o fizesse parecia injusto. Fernando, acompanhou Debora...

Capítulo 29 - Revelação

Capítulo 29 – Revelação             - O Fernando, tem passado por tudo isto? – Deborah, não queria acreditar no relato de Daniela. - Sim. Não está nada fácil para ele, Deborah. O acidente… A fisioterapia… A vontade de estar contigo e contactar-te, mas sem coragem para o fazer… Ele sente-se menos homem… - Eu quero lá saber se ele está numa cadeira de rodas! Temos sorte de ele ter sobrevivido. Que horror… O que ele passou, sozinho… Eu deixei-lhe um bilhete… Eu pedi-lhe que me ligasse… Disse que o amava e que estava à espera que me viesse buscar. - Que bilhete é esse? Ele não disse nada. - Deixei recado na empresa, quando fui a Luanda procurar por ele… Ele estava na fazenda. Coitado. Já devia estar no poço… Meu Deus… - O meu irmão não voltou ao escritório desde o acidente. É capaz de nunca ter recebido o teu bilhete… - Eu perdi o contacto dele… Eu apaguei… Fui tão estúpida… E agora? O que posso fazer? - Ele está de ...

Capítulo 27 - Preparativos

Capítulo 27 – Preparativos             Faltavam apenas duas semanas para a data prevista para o parto. Deborah, tinha tudo preparado e organizado. O quarto da bebé, a mala que tinha de levar para o hospital… Apesar de tudo, sentia-se feliz e aguardava ansiosamente a chegada da filha. Sentia-se preparada física e psicologicamente para a nova fase da sua vida. Durante meses chorou a ausência de Fernando, até que se habituou a ela. Amaldiçoou-o ao início, mas depois aceitou que se não fosse o que se havia passado nunca teria engravidado. A presença dele que nem um relâmpago na sua vida teve um propósito: ser mãe. Se não tivesse acontecido dessa forma nunca teria acontecido. E apesar da bebé ainda não ter nascido, Deborah, tinha a certeza de que esta era a maior bênção que poderia ter tido. - Deborah, faltam duas semanas para a bebé nascer, sei que a decisão é tua, mas o Fernando tem o direito de saber. – Laura, pressionou a a...