Capítulo 11 – Surpresa
A vida voltou à normalidade. Deborah, regressou ao
trabalho e mal tinha tempo para pensar no que quer que fosse. Dava sempre o seu
melhor, e para tal não tinha tempo para distrações. O projeto estava
praticamente no fim e a quantidade de relatórios, revisões, comentários e
reuniões era simplesmente surreal. Falavam sempre em lições aprendidas, ou
seja, usar os erros de projetos anteriores para melhorar, mas, esqueciam-se
sempre que deixar as coisas para o fim era uma lição que também tinham que
aprender.
Trabalhava no centro de Londres, em Paddington. Felizmente,
apenas tinha que apanhar uma linha, a “Central Line”, sem ter que fazer mudanças
de linha. Contudo, saia sempre muito cedo de casa para evitar os metros “ensardinhados”
no qual não havia muito espaço para se movimentar. Os últimos metros, entre
Lancaster Gate, estação onde saía, e Paddington, fazia a pé. Gostava de andar
aquele bocadinho, pedir um Cappuccino descafeinado, no Sandro’s (um café
deliciosamente português), e iniciar o dia de trabalho com um sorriso e sempre
que possível uma oferenda de pastéis de natas aos colegas.
Deborah, sempre apreciou o trabalho. Apesar da azáfama,
das reuniões intermináveis, dos resultados quase impossíveis que lhes eram
pedidos, e dos mil e um relatórios, gostava do que fazia. Sentia que eram uma
família com um objetivo em comum e apoiavam-se uns aos outros. Já havia
recebido propostas de outras empresas de engenharia, mas estava bem onde
estava.
Decidiu ligar a Laura, sua amiga, já há muito que
não estavam juntas e ainda não tinha aberto o jogo em relação ao Fernando.
Combinaram jantar em Holborn, em um dos restaurantes favoritos de Laura. A
amiga era posh, e gostava sempre dos melhores locais, que na definição
dela eram sempre os mais caros.
- Como foi a viagem a Angola? Desde que chegaste
que te fechaste em copas… - perguntou a amiga curiosa.
- A viagem a Luanda, foi interessante, devo dizer.
Muito interessante em todos os aspetos.
- Obviamente que vais dar-me mais detalhes, certo?
Vais contar-me tudinho ao pormenor, não é? Às vezes, gostas de falar com meias
palavras e eu quero saber de tudinho…
Deborah, relatou a viagem a Angola. O encontro com os
familiares, o tempo que passou com os primos… Tentou explicar em poucas
palavras como a beleza, o luxo e a pobreza conseguem viver numa desarmonia harmoniosa.
E… Eventualmente, contou à amiga sobre Fernando. Contou-lhe sobre como se
haviam visto pela primeira vez e posteriormente jantado e caminhado pela marginal.
Falou-lhe dos beijos e das promessas… Falou-lhe do que sentia quando estava
perto dele e quando pensava nele…
- Não acredito no que me estás a dizer. Estás
apaixonada, tu? Á primeira vista? A Deborah que não acredita em destino? A Deborah
que não acredita no amor à primeira vista nem em paixão? A Deborah que defende
que a atração não passa de uma reação química? Não posso acreditar! Quem é este
Fernando, que enfeitiçou a minha amiga, que atenção, não acredita em feitiço?
- Não sejas assim… - sorriu. – Nem eu sei o que
aconteceu. Sinceramente. Estou confusa, super confusa, mas não posso negar as
reações que passam pelo meu corpo quando penso nele, quando estou com ele,
quando falo com ele…
- Ah, as reações voltaram. A lógica volta a
apoderar-se da minha amiga pragmática. – Laura, respondeu em tom de gozo. – Acho
que aconteceu porque estavas sem o teu escudo erguido, amiga. Já passaram
muitos Fernandos por ti, tu é que não prestas atenção. Estou cansadinha de
dizer-te isso. Tu não permites…
- Estava sem o meu escudo erguido, como? Nunca fugi
de nada. Simplesmente nunca aconteceu.
- Sabes bem que o George, teu colega há mais de 10
anos, daria tudo para fazer parte da tua vida. O homem respira o ar que tu
respiras e nunca deste uma hipótese. E o pior, é que ele é extremamente
interessante. Não sei como tu não vês isso, ou finges que não vês. Quem dera a
muitas…
- O George? O George, fala a brincar. Aquilo é
obviamente um flirt no escritório. Não há intenção de passar disso.
- Será? Então, por que motivo até hoje não lhe conhecemos
uma namorada? Deve estar com esperanças.
- Deve ser gay. Nunca o vi com mulher nenhuma. Não
há problema nenhum, pode assumir-se. Estamos no século XXI e aqui na Inglaterra
isso é mais do que normal.
- Tu és incrível. O homem ama-te, é por isso que
não se envolve com ninguém, e como tu também não te envolves com ninguém ele
deve ter a sua esperança.
- Esperança? Nunca dei motivos para tal.
- Não? A forma como sorris para ele, como és
prestável, como levas um café para ele sempre que tiras um para ti…
- Credo, Laura. Somos amigos. Se trabalhássemos as
duas no mesmo escritório faria o mesmo por ti.
- Eu sei disso, Deborah. Mas, ele não sabe.
Acredita que ele tem esperanças de quem dia ficarão juntos…
- E vive de esperanças? Quem faz tal coisa?
- Aqueles que acreditam no destino…
- Ah… Esses.. – sorriu. – Não ando com nenhum
escudo, Laura. Tu sabes bem o que eu penso sobre as relações, principalmente
depois do João. A falta de honestidade e comunicação são um mal comum. Uma epidemia…
E, os homens não acreditam em monogamia…
- Não faças de um caso, todos os casos. O que
aconteceu entre ti e o João foi um caso. E, se queres que te diga ele não foi o
único culpado.
- Ai, não? Fui eu que o coloquei na cama com a
Teresa?
- Quase que o empurraste para lá com a tua mania de
planear tudo e de manteres a relação desprovida de emoção. Não baixaste a
barreira, estavas com ele porque achavas que fazia sentido, que tinha lógica…
- Eu sei… - admitiu, Deborah. – Eu sei que a minha
relação com o João… Eu não gostava dele dessa forma… Nunca senti nada
extraordinário quando ele me beijava, ou tocava-me… Mas, achava que era assim
mesmo. Até que… Até que o Fernando… Aquele beijo… Fiquei enfeitiçada… até pedi
para dormirmos juntos… Estava louca.
- O quê? Pediste?
- Só conseguia imaginar que se o beijo era assim tão
maravilhoso, como seria a sensação de tê-lo bem junto, bem dentro de mim…
- Alguém que me belisque – Laura engasgou-se. – A minha
amiga foi clonada e trouxeram o clone para Londres. Esta não é a minha Deborah…
- Pois… E agora? Como vamos fazer? Não penso noutra
coisa, só penso nele, só quero estar com ele… Graças a Deus que tenho o
trabalho que me mantém ocupada, Laura. Mas, a minha vontade é meter-me num
avião e ir ter com ele, beijá-lo mais e mais… Já não aguento com esta vontade…
Quando ele telefona, fico imediatamente fora de mim. Nem consigo explicar…
- Quando é que ele disse que vem?
- Para a semana. Só falta uma semana. Mas, eu não
aguento mais. Preciso de estar com ele, como é que se vive uma relação à distância?
Como?
- Com muito sofrimento, amiga. Mas, se for para ser
vai valer a pena. Vocês irão arranjar uma forma de estarem juntos…
- Será?...
Deborah, voltou para casa cheia de dúvidas. Quanto
mais o tempo passava, mais as dúvidas se apoderavam dela. Queria estar com o
Fernando, mas o melhor seria terminarem tudo por ali. O melhor seria ele nem
sequer ir ter com ela a Londres. Iria ligar e explicar… Não valia a pena… Mal
tinha passado uma semana e já não aguentava de saudades… Sentia uma angústia
tão forte…
Chegou a casa e parou na porta à procura das
chaves. Como sempre, nunca a encontrava dentro da mala cheia de sei lá o quê.
Tinha que esvaziar a mala um dia desses. Não ouviu os passos que se aproximaram
dela. Sobressaltou-se quando ouviu uma voz que reconheceu de imediato.
- Precisas de ajuda a encontrar as chaves?
Deborah, não queria acreditar. Ali, à sua frente estava
Fernando. Lindo, maravilhoso, real. Ele era real, de carne e osso. Não queria
acreditar. Devia ser mais um dos seus sonhos.
- Não aguentava de vontade de te ver, Deborah. Não
aguentava…
Fernando, ajudou a levantar-se e beijou-a
apaixonadamente. Não podia deixar esta mulher sair da sua vida nunca. Não iria
aguentar…
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