Capítulo 13 – Água Fria
Ficou sentada no sofá, por longos minutos, sem
saber o que fazer. O coração acelerado, a fraqueza nas pernas, e a vontade… a
vontade de fazer amor com Fernando… Como era possível que ele… Como foi capaz
de ir embora, assim? Que autocontrolo era esse? Ou seria autocontrolo? O que
poderia significar isto? Era a segunda vez que a deixava nesse estado para, a
seguir, recusar ir até ao fim.
Não conseguia entender… Por que motivo não ia para
a frente? O que o impedia de a tomar nos braços e consumar essa vontade que tão
claramente existia entre os dois? Ligou para a amiga…
- Laura, não entendo… - disse, ainda ofegante…
- Não entendes? O que há para entender? O homem
quer que tu o leves a sério. Isso é que é para entenderes.
- Só pode ser brincadeira… Estamos no século XXI. Quem
faz isto? Caramba, ele que leve tudo. Estou pronta para dar tudo…
- Estás, não estás? Já deu para perceber, que estás
mesmo prontinha. Dá para notar na tua voz. – gozou a amiga. – Vai tomar um banho
de água gelada para ver se acalmas isso. Ahahaha.
- Palerma. Estou a falar a sério… Isto não parece
real. Deve ter alguma coisa por trás…
- Tu não consegues aceitar nada sem questionar mil
vezes? O homem não quer que tu penses que ele veio ver-te apenas para dormir
contigo. Ele já deixou bem claro que quer muito mais do que isso. Ele veio de
Luanda para ver-te com uma semana de antecedência… Estás a ver o que se está a
passar aqui?
- Eu sei, que ele veio. Chegou bem na hora que eu
já estava a pensar pedir para ele não vir.
- Esse homem, conhece-te bem demais. Incrível, eu
sei, mas conhece. E, não está a brincar quando diz que quer ficar contigo,
Deborah. Até eu já começo a acreditar na loucura dele…
- Foi tão bom… Foi tão bom vê-lo… Foi uma surpresa
tão boa. Foi automático… A minha vontade de cair nos braços dele… Foi tão bom…
Não consigo explicar, mas…
- Tens medo não tens?
- Estou aterrorizada. Só penso nele, só quero estar
com ele, só sinto o cheiro dele… Tudo é ele, até no trabalho. Ocupo-me o dia
todo para chegar a casa rápido e falar com ele ao telefone. Esse homem vai dar
cabo da vida como eu a conheço…
- Finalmente, alguém para dar uma cor à tua existência.
- Nunca precisei de homem algum para dar cor à
minha existência, Laura. Sempre fui muito bem decidida, sempre fiz o que quis…
E não digas que preciso de um homem para ser completa.
- Não, certo? Por isso agora é que estás mortinha
para que ele te complete bem completada na cama… - provocou Laura. – Por mais
completa que sejas é bom chegar a casa e ter com quem falar, nem que seja à
distância.
- Mortinha mesmo… - corou com o pensamento – sim, é
bom falar com ele. Falamos tanto… Sobre o nosso dia, sobre o trabalho, sobre coisas
banais, sobre livros… A conversa nunca acaba.
- Então para de questionar tudo e aproveita o momento.
E, melhor ainda, sossega a periquita que o Fernando não vai dar uso tão cedo…
- Tu aproveitas sempre para gozar…
- Devemos sorrir sempre para a vida, certo? Bem… Estou
mortinha para conhecer esse Fernando… Quanto tempo ele vai ficar?
- Olha, nem sei. Nem toquei no assunto…
- Não… Não tocaste no assunto, estavas mais
preocupada em querer tocar outras coisas… - deu uma gargalhada. – Agora vai
dormir que amanhã tens de acordar bem cedo e não queres que ele olhe para a tua
cara de zombie, pois não…
- Vou seguir a tua primeira sugestão e tomar um
banho de água fria. Credo!
- Amiga… Diz-me uma coisa: estás feliz, não estás?
- Sinceramente? Nunca me senti tão feliz e com
tanto medo ao mesmo tempo.
- Deixa o medo para trás e abraça essa felicidade.
Pensa que mesmo que esta relação não seja para a vida toda, o que estás a viver
neste momento já valeu a pena. Boa noite.
- Obrigada, amiga. Vou tentar seguir os teus conselhos.
Deborah, decidiu encher a banheira e relaxar. Tinha
a cabeça a andar à roda. Não queria acreditar que ele tivesse vindo, assim, sem
avisar. Estava muito feliz, mesmo. Também ele não aguentava de saudades, também
ele queria estar com ela… Parecia um sonho. Parecia estar a viver um sonho…
Sentia-se, realmente, uma das atrizes principais num filme romântico. E, como
num verdadeiro filme, havia algo que os impedia de estar juntos. Tinha medo de
não conseguir passar a derradeira prova. Já tinha Fernando bem entranhado na
alma, e só a possibilidade de a relação não singrar a deixava apavorada. A
distância era o obstáculo que o sentimento de ambos tinha de superar…
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