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Capítulo 18 - Regresso


Capítulo 18 – Regresso

            Nunca a viagem para Luanda havia parecido tão longa. Fernando, estava exausto da viagem, mas mais exausto com a dor por ter deixado Deborah. Não queria passar um minuto que fosse longe dela, mas ambos tinham responsabilidades a cumprir. O fim de semana tinha corrido melhor do que pensava. Quando saiu de Luanda a ideia era apenas visitá-la, e não terminar casado. Girou a aliança e sorriu feliz. Por vezes, sabia bem perder a cabeça e seguir o seu instinto.
Teriam que encontrar uma solução que resultasse para ambos, embora tivesse completa noção de que alguém teria de sacrificar mais, e que provavelmente esse alguém era ele. Não conseguia imaginar Deborah a viver em Luanda. Seria muito difícil adaptar-se em Luanda, principalmente estando a morar numa cidade como Londres.
E ele? Conseguiria deixar Luanda? Ainda tinha tanto trabalho pela frente. Para além do trabalho que exercia como engenheiro, Fernando estava a participar em um projeto de reabilitação de adolescentes. Tinha comprado um terreno no Kilamba e estava a construir um centro comunitário. A intenção era ter um espaço com computadores, campo de futebol, campo de basquetebol, workshops… Queria ter algo que os miúdos pudessem usar e aprender. Ajudar na educação e desenvolvimento… Ele não podia largar o projeto a meio. O trabalho, poderia encontrar em Londres com facilidade. Mas os miúdos? Não os podia deixar na mão… Poderia delegar alguém para gerir e organizar, mas não seria a mesma coisa.
Aterrou em Luanda com a cabeça em água. Tinha que ir direto para o trabalho. Ligou para Deborah e disse-lhe que tinha chegado bem, que estava a morrer de saudades e que muito em breve estariam juntos. Disse que a amava muito e que tinha passado o melhor fim de semana da vida dele. Despediu-se com o aperto no coração a que já estava a ficar acostumado, sempre que falava com Deborah… Com a esposa. Sorriu com o pensamento.
- Doutor… Doutor… - José, esbracejava tentando chamar a atenção de Fernando. – Finalmente… O voo atrasou um pouco.
- Olá, José. Sim, atrasou uma hora acho eu. E tenho que ir direto para o escritório. Estou exausto.
- Imagino. Está com cara de quem não dormiu…
- Acho que nos últimos 3 dias se dormi 5 horas no total foi muito.
- Então como correu por lá? A senhora Deborah? Como foi? Eu sou o padrinho… Se não fosse eu não se teriam encontrado.
- Se estás a referir-te a padrinho do meu primeiro casamento, já vais atrasado. – Fernando, mostrou a aliança no dedo. – Essa fase já passou.
- O doutor só pode estar a brincar comigo. Casou? Como? Quando? A sua mãe vai cortar-lhe o pescoço…
- Olha, nem sei. Foi o que me pareceu certo… Fez todo o sentido. Nunca senti por ninguém o que sinto pela Deborah.
- Doutor, não quero intrometer-me, mas não acha que é muito cedo? A decisão parece-me muito precipitada.
- Eu sei, José. Eu sei. Foi também uma forma de mostrar que eu estou a ser sério em relação a isto.
- Não é preciso casar para mostrar que é sério… Desculpe, doutor. Mas, a sua mãe… A sua irmã… Não quero nem pensar.
- Eu trato delas depois. Neste momento tenho que pensar como vou fazer com a minha mulher. Como vamos viver… Onde vamos viver… Não consigo pensar em solução nenhuma que não acabe em sacrifício para um dos dois.
- Desculpe, doutor, mas, não devia ter pensado nisso antes? Agora com o ato consumado é que está a pensar?
- Caramba, José. Tiraste o dia para colocar-me perguntas difíceis?
- Desculpe, doutor. Deu-me a liberdade para falar livremente e assim o fiz. Sou da opinião que foi uma decisão precipitada. Sou da opinião que vai fazer mais mal do que bem, para ambos. Mas quem sou eu, certo? Um humilde motorista…
- Sabes que és muito mais que isso. Valorizo a tua opinião… Também não sei como o fazer. Posso alternar temporadas entre lá e cá, numa fase inicial.
- E depois?
- Depois, logo se vê.
- E vai construir o seu casamento com base no logo se vê? Não vai acabar bem…
- Deixa de agourar, José.
- Existe agourar e existe o encarar a realidade… Só estou a encarar a realidade.
- E, sabes lá se a Deborah vem morar aqui comigo? Ela pode trabalhar aqui, tem muitas empresas no ramo dela. Pode vir morar comigo aqui na vivenda…
- Se o doutor, o diz. Eu retiro o que falei. Não estou a ver menina da cidade de Londres, a vir morar aqui…
- Ela também é angolana. Tem família aqui. Iria estar em casa, com o marido…
- Realmente, doutor, já está mesmo a portar-se como tal. A tomar decisões por ela. Casou-se sim senhor.
- Eu só estava a colocar uma hipótese… Eu… Não tenho que me justificar, José.
- Já não está cá quem falou, doutor. Já não está cá quem falou. Desculpe.
Fizeram o resto da viagem para casa em silêncio. Fernando, tomou um duche rápido, era incrível o calor logo pela manhã, e foi para o trabalho. Passou o dia todo em reuniões e mal teve tempo de ligar para Deborah. Chegou a casa estafado e atirou-se na cama.
- Oi… - ligou. – Então, amor, como correu o teu dia no trabalho?
- A correr, Fernando. Vamos começar um novo projeto e o meu patrão pediu-me para ser a Lead, ou seja, vou comandar uma equipa de mais de 15 pessoas. Tenho que definir tudo, controlar as datas de entrega dos relatórios, coordenar as reuniões com os clientes…
- Parece-me muita responsabilidade.
- Sim. Trabalhei para esta oportunidade por muito tempo. O projeto está previsto ter a duração de três anos. Vai ser uma loucura. Muitas viagens até Oman… Nem quero pensar nisso…
- Vais conseguir. És uma mulher muito inteligente…
- Eu vou fazer os possíveis, mas vou ter que trabalhar muitas horas por semana, trabalhar aos fins de semana… Vou ficar sem vida por uns tempos… Acho que nem férias vou poder tirar nos próximos dois anos…
- E onde encaixo eu nisso? No teu tempo livre, que não existe?  - Perguntou meio chateado.
- O que queres dizer com isso? – percebeu a sua irritação no seu tom de voz- Não estou a perceber.
- No meio de tanta coisa onde haverá espaço para o teu marido, pergunto eu?
- Fernando, quando puderes vir visitar-me… Temos de definir…
- Ah, eu terei de basear as minhas visitas na tua não disponibilidade…
- Fernando, estás a ser injusto. Não poderás estar a sugerir… Nem te passou pela cabeça, sugerir que eu não aceite esta oportunidade.
- Nada disso. Não disse isso, apenas perguntei se no meio disto tudo pensaste em mim. Quando nos vamos ver, estar juntos? No meio de tantos planos não ouvi nada em relação a mim… Pelos vistos já voltaste à vida real e tudo não passou de um sonho.
- Não acredito no que estou a ouvir. Achas que estás no direito de cobrar e exigir algo de mim? Quando foste para Luanda, pensaste em mim? Pensaste quando me irias voltar a ver? Ou estavas à espera de que eu largasse tudo para ir correr atrás de ti? Sou uma mulher independente. Não preciso disto…
- Tu agora tens marido… Tens de… - Fernando, parou ao ouvir as próprias palavras…
- Tenho de? Só podes estar a brincar… Incrível…
- Deborah… Desculpa. Estou irritado, porque não sei quando te vou voltar a ver. E só ouvi os teus planos, não me senti incluído. Desculpa… Não devo exigir nada. Não estabelecemos nada…
- Pois, não. Agimos como dois inconsequentes! Pensamos que a vida era assim, certo? Os dois! Pensamos que a vida é o amor e uma cabana e que basta dizermos que nos amamos e que fica tudo bem. Pensamos, mas pensamos mal. A vida não é só isso…
- Deborah… retiro o que disse… Tens razão, não pensamos. Haveremos de chegar a um meio termo…
- Aqui não existem meios termos. Ou é ou não é. Tão simples quanto isso.
- O que queres dizer com isso?
- Muito simples, Fernando. Isto não vai resultar. Não sei onde estava com a cabeça ao pensar que sim. Estás do outro lado do mundo, tens a tua vida e eu tenho a minha. Não vamos mudar de vida de um momento para o outro apenas porque nos encontramos na Chicala e não conseguimos deixar de pensar um no outro.
- Diz o que queres dizer, Deborah. Não uses meias palavras.
- Fernando, não estou a usar meias palavras. A nossa relação não vai resultar, ponto final.
- Nossa relação, ou nosso casamento queres tu dizer?
- Isso… Não vai resultar. Esquece. Eu tenho que ir dormir. Amanhã tenho um grande dia no trabalho.
- Então é assim, Deborah. Desistes à primeira.
- Não é desistir. Ambos sabemos que isto não vai dar certo. Já estás a fazer exigências. Nenhum dos dois está disposto a largar a vida que tem por uma história da carochinha.
- É assim que tu vês tudo o que se passou entre nós?
- Sim. Isso mesmo. Uma história. Um fim de semana maravilhoso, os melhores dias da minha vida. Mas, não passaram de um sonho. A vida real já bateu à porta e confesso que não gostei do que vi.
- Então ficamos assim… Esquecemos de tudo? É isso eu estás a sugerir?
- Sim. Fernando. – Deborah, disse a custo. – Não vai resultar, vamos encarar a realidade.
- Não foi o que me disseste quando juraste amor eterno… - respondeu magoado.
- Não disse que não vou amar-te para sempre. E vou… Nunca senti por ninguém o que sinto por ti. Mas… Somos adultos e a vida não é só isso. Vamos parar por aqui…
- Não sou eu que vou forçar-te a nada. Se é assim que queres, assim será.
Deborah, ficou em silêncio e tentou conter as lágrimas.
- Sim, Fernando. Adeus… Não me voltes a contactar.
- O seu desejo é uma ordem, senhora minha esposa. Adeus.
Fernando, desligou o telefone incrédulo com o que se havia acabado de passar. Agiu como uma criança e como um bruto ao mesmo tempo. E depois, não foi capaz de engolir o orgulho. Mas que raio se estava a passar? Mas que raio tinha acabado de acontecer?

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