Capítulo 19 – Impulso
Só
podia estar doido. Quem pensava ele que era? Mas, quem pensava ele que era?
Questionar a sua dedicação ao trabalho? Ele não tinha noção do quanto custava
para uma mulher construir uma carreira no mundo da engenharia. Um mundo repleto
de homens. Um mundo em que a mera presença dela já era considerado um desafio.
- Não estás bem a ver a lata dele, Laura. Não estás
mesmo a ver… - disse Deborah, em soluções.
- Calma. – entregou-lhe um lenço. – Estás toda ranhosa,
limpa-te e acalma-te.
- A pior coisa que podes dizer a alguém que está
nervoso é “calma”.
- Então grita. Grita o que tiveres que gritar, mas
não grites comigo. Vai lá fora ao jardim e grita. Depois, quando estiveres mais
calma podes falar comigo.
- Olha que tu…
- Achas que vais conseguir pensar ou chegar a
alguma conclusão nesse estado? Pensei que estavas a morrer quando ligaste.
Afinal, foi só uma discussãozinha.
- Discussãozinha? Acabou. Não há mais Fernando para
ninguém. Nunca mais o quero ver à minha frente. Não quero estar com uma pessoa que
não respeita o meu trabalho…
- Não foi bem isso que aconteceu, Deborah. Estás a
ser injusta com ele.
- Não acredito que o vais defender…
- Olha, Deborah… Independentemente de tudo o que
estavas a pensar quando aceitaste casar com ele? Pensaste que casavam e ele
voltava para Luanda e iria vir de tempos em tempos e a tua vida ia continuar a
mesma coisa?
- Não estava a pensar nada disso. Nem sequer estava
a pensar, esse é o grande problema. Quando estou com ele parece que não penso.
Tudo o resto toma conta. Tudo faz sentido. Ajo de impulso. – Voltou a chorar.
- Mesmo que assim seja. Não achas que quando prometemos
partilhar a vida com alguém devemos tomar decisões em conjunto? Ou melhor,
quando tomamos uma decisão devemos no mínimo pensar nas consequências para com
a pessoa com quem estamos? Não achaste, deixa-me contar ao Fernando…
- Sim, pensei. Deixa-me contar ao Fernando. Estou
feliz. Finalmente a posição que eu queria. Finalmente.. Quis contar-lhe logo a
seguir…
- Pois… Mas não pensaste que um projeto de três
anos, com tanta responsabilidade, tantas horas extras, possíveis viagens, iria
afetar a vossa relação? Melhor, o vosso casamento, que tu aceitaste de livre e
espontânea vontade?
- Eu… Não… Isso não tem nada…
- Claro que tem. Claro que influencia. Neste
momento o vosso tempo é limitado. Enquanto não decidirem onde vão morar, como
vão fazer, o vosso tempo será limitado a fins-de-semana, férias, escapes… Obviamente
que ao contares ao Fernando sobre o novo trabalho, as horas extras… Ele entrou
em pânico… Atenção. Não o estou a justificar. Se ele falou contigo da forma
autoritária que mencionaste, não o devia ter feito. Mas, estou a ver o pânico.
O homem veio de Luanda passar um fim de semana contigo, acabaram por casar. A vossa
vida já estava complicada o suficiente, agora parece-lhe impossível…
- Então que dissesse isso… Que dissesse…
- Da forma como eu te conheço, Deborah. Não deste tempo
para que ele o fizesse e entraste logo a matar. Aposto até que foste tu que puseste
termo a tudo.
- Claro. Claro que entrei a matar. Não lhe admito.
Quem pensa ele que é? Estar a dar bitaites sobre a minha carreira.
- Quem pensa ele que é? Se calhar, só o teu marido.
Deste-lhe toda a autoridade para questionar todas as tuas decisões daqui para a
frente. A não ser que aceitaste casar só porque estavas envolvida no momento?
Não sabes o que é o casamento?
- Eu… Sei lá. Meu marido… Quando aceitei foi porque
genuinamente queria passar o resto da minha vida com ele.
- Queres passar o resto da tua vida com ele, mas ao
mesmo tempo ele não tem o direito de dar opiniões sobre as decisões que tomas.
Irónico e contraditório.
- Estás contra mim.
- Não. Por acaso, estou a adorar pela primeira vez
ser a voz da razão. Tu não podes querer casar com alguém e ao mesmo tempo não
permitir a essa pessoa que interfira na tua vida, ou sequer tomar decisões sem
ao mínimo falar com ele. Tenho a certeza de que se tivesses dito qualquer
coisa, ele seria o primeiro a apoiar-te. Sentiu-se excluído…
- Na volta tens razão, mas isto apenas demonstra
que não dá. Não vamos a lado nenhum. Não estamos preparados para viver
verdadeiramente uma vida a dois.
- Não estão ou não estás?
- Os dois. Ele também não se comportou à medida.
Podia ter agido de outra forma, sei lá. Não dá, não vai resultar. Quem se casa
em dois dias?
- Pessoas que se amam verdadeiramente, e não têm
dúvidas nenhumas sobre o que sentem um pelo outro. Tu mesma disseste que
estavas perdidamente apaixonada por ele. Que o amas.
- Sim… Com ele, tudo faz sentido. Perco as inibições,
tenho a certeza… Estou tão confusa.
- Ninguém disse que ia ser fácil, Deborah. Nunca
pensei que fosses tomar uma decisão destas, mas também nunca te vi a desistir
tão cedo.
- É complicado demais. E no que toca ao Fernando,
faço tudo de impulso.
- O meu conselho é que pares de agir por impulso e
penses bem no que queres fazer daqui para a frente. Vocês fizeram votos, prometeram
coisas um ao outro. Por mais que eu ache que foi cedo demais, a realidade é que
aconteceu. E sempre te conheci como uma mulher de palavra.
- Sim. Tens toda a razão. Vou analisar bem a
situação. Ver as hipóteses, o que podemos fazer.
- Vais começar por pedir desculpa, certo?
- Estás a ir longe demais…
- Tens de aprender a engolir esse orgulho amiga…
- Ok… Ok… Vou pedir, desculpa…
- Agora que estás mais calma, e menos ranhosa,
conta-me lá tudinho ao pormenor. Esse fim de semana de sonho? Nascer do sol em
Greenwich, passeio e casamento em Paris, lua-de-mel no sofá… - deu uma risada. –
Viveste a tua vida toda num espaço de 48 horas e eu estou mortinha para que me
contes tudo ao pormenor… Como foi? E, o sexo? Conta-me tudo…
- Nem sei por onde começar… Um sonho… Foi um sonho…
Simplesmente…
Deborah, parou de falar e começou a chorar
desalmadamente no ombro da amiga. O que é que tinha acabado de fazer? Tinha
pedido ao amor da sua vida para nunca mais falar com ela, tinha falado coisas
horríveis. Tinha sido bruta demais com ele. E… pior, no meio da raiva, apagou
todos os contactos que tinha dele. Não tinha como contactá-lo. Se calhar, podia
ligar para a empresa e pedir para falar com ele… Mas, isso seria ultrapassar
uma barreira… Agora só podia esperar que Fernando a contactasse. Ela pediu que
ele nunca mais o fizesse, e ele assentiu, magoado, mas assentiu. E só havia uma
certeza que ela tinha sobre o marido: ele era um homem de palavra.
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