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Capítulo 20 - Recomeço


Capítulo 20 – Recomeço

            - Ligue para ela, doutor. Deixe o orgulho de lado. – José, falou preocupado com o patrão tornado amigo.
- Não vou ligar, José. Não vou ligar.
- Já estamos há semanas nisto. O doutor não come, não dorme… Até dá dó de ver.
- Já passa… Não hei de morrer por isto…
- Já não está cá quem falou… - calou-se e continuou a conduzir. – Onde vai almoçar? Chicala?
- Não quero ir à Chicala. A última vez que lá fui encontrei a Deborah. Não quero lá ir… Faz-me lembrar dela.
- E até parece que não está a pensar nela a todos os segundos… Precisa alimentar-se. Se não quer ir até à Chicala, diga-me onde quer ir? Clube Náutico?
- Sei lá… Pode ser esse…
Fernando, encostou a cabeça ao banco do carro e fechou os olhos. Estava exausto e continuava irritado com Deborah. Para ela não tinha passado de um conto de fadas. Não tinha levado a sério. Era mais do que óbvio que não tinha levado a sério o que se havia passado entre ambos. Ele não iria ligar. Ela pediu que ele não ligasse nunca mais. Se ela ligasse ele falaria com ela. Tentaria fazer com que ela entendesse que ele apenas se sentiu excluído. Eram um casal, podia ao menos ter-lhe informado de outra forma, pedido a opinião dele. Mostrar que o tomava em consideração. Era óbvio que ele não iria pedir que ela recusasse. Muito pelo contrário iria dar-lhe toda a força do mundo. Só queria que ela o tivesse consultado. Que ela tivesse pensado nele por um segundo…
Os dias passaram a custo. As semanas arrastaram-se como se de meses se tratassem. Fernando, perdeu a alegria de trabalhar, de viver. Vivia em modo robot e sempre agarrado ao telemóvel. À espera de uma chamada, à espera de uma mensagem… Seria possível que ela se tivesse mesmo esquecido dele? Será que… Será que estava tudo bem com ela? Tinha que respeitar a decisão dela. Ela foi bastante clara: “Sim, Fernando. Adeus… Não me voltes a contactar”. Foram as últimas palavras… Não podia ligar. Se ela não o queria na sua vida não seria ele a forçar a sua presença. Era muito homem para o fazer, embora ele também achasse que se tratava de um mal-entendido.
Sempre que pensava em Deborah, refazia a última conversa que tinham tido. Ele também não tinha sido correto. Falou até com uma certa agressividade que não lhe era característica. Irritou-lhe a forma como ela havia banalizado o casamento de ambos. Para ele havia sido real. Prometeu… Queria fazer parte da vida dela para sempre, e não como um fantasma.
Três semanas depois, Fernando recebeu o álbum de fotos tiradas pelo fotógrafo no dia da cerimónia em Paris, assim como o certificado de casamento passado pelo oficiante. Surpreendeu-se ao ver fotos dele em joelhos a pedir Deborah em casamento. O fotógrafo captou o momento enquanto esperava que ele fizesse o sinal para que se aproximassem. Emocionou-se com o álbum e decidiu enviar para Deborah. Aquele álbum apenas o fazia sentir-se mais miserável, ela que decidisse o que fazer com ele. E quem sabe, tivesse a decência de ligar, dizer qualquer coisa.
Quem sabe, o álbum e o certificado iriam fazer com que ela entendesse que não passava de uma briga de casal… Uma briga com mais de três semanas? Tinha de parar de enganar-se a ele próprio. Deborah, já o tinha esquecido. Não voltaria a contactá-lo, se não o havia feito até agora, não o iria fazer. Decidiu enviar o álbum e fechar esse capítulo na vida dele. Chega. Já passava das marcas. Não podia continuar a viver como um zombie, por causa de uma mulher… Da mulher… Da tal…
- Fernando. Tira essa mulher da cabeça. Tira essa mulher da cabeça e do coração senão vais acabar mal. – disse para si próprio em voz alta.
Após enviar o álbum aguardou por mais duas semanas por um contacto por parte de Deborah. Decidiu que se ela não dissesse nada após a receção da encomenda, que ele fez questão de enviar e registar via DHL, nunca mais iria voltar a contactá-la. Duas semanas se passaram e nem um sinal de Deborah. Era o fim. Tinha que seguir com a sua vida Não podia continuar a viver assim. Só sabia de uma forma para esquecer uma mulher… Colocar outra no lugar dela…
Aos poucos a vida voltou ao lugar. Colocou Deborah num canto especial no coração e continuou a sua vida. Voltou a focar-se no trabalho e a sair com os colegas e amigos. Saiu com algumas mulheres, mas não conseguia passar da fase da conversa. Sempre que beijasse alguém sentia um certo repúdio. Não conseguia tocar em mulher nenhuma dessa forma. Por mais interessante que elas fossem nenhuma era a Deborah.
- Sinto que estou embruxado. Não consigo estar com mulher nenhuma. – Confidenciou a José, enquanto almoçavam no Miami Beach bar.
- Nem diga isso, doutor. A única forma de sair desse feitiço é ir a Londres e confrontá-la. Tem de estar com ela uma última vez.
- Acho que tens razão. Eu tentei de tudo. Até consegui voltar a dar um rumo à minha vida, mas… Não consigo superar a parte emocional. E não vou ligar. Tens razão, tenho de a ver. Tenho de perguntar como é possível. Não acredito que ela me tenha esquecido.
- Ou então o problema é esse, doutor. No seu íntimo aguarda que ela ligue para si. Ainda tem esperanças…
- O que se passou entre nós não se esquece assim de um dia para o outro.
- Já passou um mês doutor… Já passou mais de um mês…
- Não vou ficar com este fantasma na minha cabeça. Amanhã vou ao Golungo Alto supervisionar as obras na Fazenda Boa Vontade, mas quando regressar vou a Londres. Ela vai ter que me dizer que não me quer a olhar-me nos olhos.
Fernando, mal podia esperar. Estava ansioso para voltar a ver Deborah… Nem que fosse pela última vez. Tinha que fechar o capítulo, por fim à história. Não podia continuar a fugir e a ignorar a situação. Tinham que falar. Não fazia sentido terminarem do jeito que terminaram. E essa conversa não podia ser ao telefone. Essa conversa tinha que ser cara a cara…

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