Capítulo 21 – Novidades
Sempre
ouviu dizer que o amor não mata ninguém, mas mói. Quer dizer, a falta de amor mói,
e mói muito. Deborah, retornou à sua rotina, mas perdeu o sorriso no olhar. Andava
em modo robot, a profissão que tanto defendeu começou a não passar de um cargo
pesado que carregava.
Não se sentia bem nem feliz em lado algum. Vivia
agarrada ao telemóvel na esperança de receber uma mensagem, uma chamada… Os
olhos brilharam quando recebeu uma encomenda de Angola. Enrolou-se na cama sem
forças para se levantar. Foi real. Aconteceu. Não tinha sido um sonho… As
fotos, a felicidade no olhar de ambos… O momento mágico em Paris… A cerimónia….
As promessas…
Prometeram amar-se, respeitarem-se e serem honestos
um com outro. Prometeram que fariam parte da vida um do outro para sempre… E
claro, ela tinha que estragar tudo. Mas, o Fernando também era orgulhoso. Por
que motivo não ligava, nem que fosse para tirar satisfações? Muito
provavelmente já a tinha esquecido… Tanto tempo… Quem sabe após o envio das
fotos ele não sentisse a mesma nostalgia? Quem sabe não estava a caminho?
Deborah, deixou de sair. Saia de casa para o trabalho
e corria para casa na esperança de o encontrar na porta. Quem sabe ele não
faria como fez da outra vez e vinha sem avisar? O coração sobressaltava quando
ouvia a campainha, apenas para entrar em modo de dor profunda ao perceber que era
o correio, ou um vendedor. Perdeu a vontade de fazer o que fosse e todo o tempo
livre que tinha passava a dormir. Só queria dormir… Em sonhos estava com o
Fernando. Em sonho moravam juntos e faziam amor todos os dias…
Ainda conseguia sentir o cheiro, o toque… Foi tudo
tão mágico. Foi tudo tão real… Mas, chegou ao fim. Tinha que se conformar que o
Fernando não iria ligar, nem iria aparecer. A Laura tinha razão, se ela
quisesse fechar o capítulo teria que ir a Luanda. Afinal, quem começou a
discussão tinha sido ela. E era assim tão fácil para ele largar tudo? Custava
alguma coisa ligar? Não queria dar o braço a torcer? Então, não a merecia.
Deborah, convenceu-se que ele não a merecia e que não ia chorar nem perder nem
mais um segundo com quem não luta por ela.
Chegou ao restaurante e disse o seu nome. A empregada
de mesa acompanhou-a até à mesa onde George a aguardava. Observou-o à distância.
Laura tinha razão, era realmente um homem interesse. Ligeiramente mais alto que
Fernando, cabelo castanho a fugir para o ruivo, assim como as sobrancelhas, e
os olhos claros, cinzentos diria. Notava-se que fazia exercício regular, visto
que os músculos quase que rebentavam a camisa quando ele se movimentava. Como é
que um homem destes não tinha namorada?
- Olá, George. – disse ao aproximar-se da mesa. George,
levantou-se e afastou a cadeira para que ela se sentasse. Acomodou-a e
sentou-se à sua frente.
- Obrigada por teres aceite jantar comigo, Deborah.
Confesso que estava há muito tempo a tentar ganhar coragem para o fazer.
- Então, George? Somos amigos, podemos sempre vir
jantar.
- Sabes bem que não estamos aqui como amigos, hoje.
– Olhou para ela meio envergonhado.
- Um “date”. Estamos em um “proper date”. – Sorriu para
ele. – Eu não sei se estou em condições para iniciar qualquer tipo de relação
George.
- Lá estás tu a tomar decisões… Que tal aproveitarmos
o jantar, conversarmos um pouco e deixar as coisas acontecerem? Não precisas
fugir como o diabo foge da cruz, não te vou pedir em casamento, não se casa num
dia, Deborah. Um passo de cada vez.
Deborah, quase que se engasgou com o comentário de
George. Se ele soubesse o que as pessoas apaixonadas são capazes de fazer… O
jantar foi bastante agradável e ficou a conhecer melhor o colega. Tinham
algumas coisas em comum, e gostavam da companhia um do outro. Contudo, já se
conheciam há anos e George confessou que sentia uma atração por ela há algum
tempo. Por que motivo não o confessou? Os sentimentos são supostos serem
guardados? Por mais que simpatizasse com ele tinha quase a certeza que não iria
passar disso, simpatia. George, era muito controlado em tudo o que dizia e
fazia. Não via nele a espontaneidade que a atraiu para Fernando.
George, acompanhou-a a casa, qual um cavalheiro, e tentou
beijá-la de leve. Deborah, percebeu o gesto e subtilmente deu-lhe o rosto.
- Gostei muito de jantar contigo, Deborah – disse,
um pouco desapontado. – Podemos combinar algo para outro dia, ou seja, podemos
voltar a sair juntos?
- O jantar foi bastante agradável, mas… - pensou no
que a amiga tinha dito, quem sabe com o tempo não iria começar a apreciar a
companhia de George.. – Mas, que tal falarmos sobre isso amanhã, no trabalho.
Estou exausta, só me apetece dormir. E por acaso, não me estou a sentir muito
bem…
- Foi o jantar? Posso fazer alguma coisa? Precisas
de alguma coisa? – Perguntou preocupado.
- Não… Tenho andado muito cansada, só isso. Este
projeto novo, esta tensão no trabalho. Só preciso de dormir. Amanhã devo estar
muito melhor…
- Se precisares de alguma coisa, liga. Descansa.
George, afastou-se e Deborah fechou a porta. Sentia-se
muito mal e enroscou-se no sofá. Começou a sentir vontade de vomitar e amaldiçoou
o jantar. Só podia ter sido algo que comeu, ou mesmo a náusea que sentiu quando
percebeu que George queria beija-la. Só conseguia pensar em Fernando. Os lábios
dela só queriam os do Fernando…
Caminhou até à casa de banho e vomitou o jantar. Era
o que ganhava por tentar enganar o seu coração. Era castigo por, sendo uma
mulher casada, ter-se atrevido a sair com outro homem. Porque, sim, era casada.
Para todos os efeitos continuava casada no seu coração, provavelmente tinha que
fazer uma visita a Luanda e fazer uma cerimónia simbólica de divórcio. Quem
sabe, só assim se sentiria livre.
Desfaleceu a caminho do sofá. Quando recuperou os
sentidos decidiu chamar a amiga. Alguma coisa não estava bem, estava muito
fraca e sentia que estava para morrer. Doía-lhe o tudo e não passava a vontade
de vomitar. Laura, chegou em pouco tempo e levou-a ao hospital.
- Não estás a alimentar-te bem. Estás muito magra,
deves estar com anemia. Andas a brincar com a saúde. Começo a amaldiçoar este
Fernando, amiga. Olha para ti, pareces uma caveira…
- É o trabalho, o stress. Nem tudo está relacionado
com o Fernando…
- Sempre trabalhaste que nem uma cadela e nunca te
vi nesse estado. Tapa o sol com a peneira, se quiseres, mas para mim isso é culpa
dessa situação. Vem aí o médico.
Deborah, aguardou as instruções do médico. Provavelmente
iria aconselhar uma melhor alimentação e blá blá blá. Já estava bem melhor, devia
ter sido algo que comeu.
- Senhora Deborah – disse o médico – vou recomendar
que fique em observação e amanhã de manhã será transferida para a unidade de
serviços pré-natais.
- Serviços pré-natais? Não estou a perceber.
- A senhora está grávida de aproximadamente 4 a 5
semanas, pelo que vejo nos resultados dos seus exames. Mas, visto estar com uma
anemia muito elevada, será levada amanhã para fazer uma ecografia e confirmar
que está tudo bem.
Deborah, olhou para Laura com os olhos esbugalhados
e levou a mão à boca. O médico entregou-lhe um recipiente no qual Deborah
depositou os restos do jantar… Era só mesmo isso que lhe faltava. Afinal, tudo
estava relacionado com o Fernando.
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