Capítulo 22 – Fazenda Boa
Vontade
As
obras na Fazenda estavam a correr bem. A construção da casa principal estava quase
a terminar e já haviam iniciado a construção dos 12 complexos que iriam servir
de apoio ao turismo rural. A Fazenda Boa Vontade era um local simplesmente
deslumbrante. Mais de 60 hectares rodeados de árvores, vegetação… Um pequeno
rio dava vida à fazenda. Árvores de papaia e mamão cresciam livremente pela
fazenda. O proprietário, o senhor Castro Paiva, aproveitava os espaços planos
para fazer pequenas hortas: tomate, couves, cenouras…
A fazenda era conhecida pelas diferentes tonalidades
de verde, era um espetáculo de cores magnífico, um espetáculo que só a mãe
Natureza pode produzir. O único senão era
a inclinação. Rodeada por uma vegetação densa, a fazenda tinha muito poucas
planícies, o acesso não era fácil e a entrada na Fazenda fazia-se pela apelidada
curva perigosa. Contudo, mesmo com todos os obstáculos as obras estavam a
progredir conforme esperado.
Fernando, gostava muito de lá estar. Após cumprir
as suas funções acabava sempre por ir passear pela fazenda. Havia tanto terreno
por explorar. Pelas suas contas ainda não devia ter explorado nem um terço da
fazenda. Esta visita não foi exceção. Pegou em uma catana e na sua garrafa de
água e partiu para explorar o espaço.
Andar ali, permitia-lhe pensar. Caminhar era uma
das coisas que mais gostava de fazer, principalmente na Natureza. Locais em que
o homem ainda não havia colocado as suas mãos destruidoras eram os seus preferidos.
Sentiu um pouco de fome e subiu a uma árvore. Apanhou uma papaia e sentou-se
numa pedra a comer. Imaginou-se a fazer aquele percurso com os filhos. A
acordar de manhã bem cedo e ir para a mata com os miúdos. Era de uma fazenda
como esta que ele precisava. E de filhos… Também precisava de filhos… E da
Deborah…
Aquela mulher era realmente dura de roer. Estava
com a esperança de que se tivesse comovido com as fotos e de que lhe ligasse. Nem
assim… Seria possível que ele se tivesse enganado sobre ela? Será que ela não
sentia por ele o mesmo? Aquela energia, aquela atração, aquele reconhecimento
que sentiu quando a viu? É possível cruzarmo-nos com o amor da nossa vida e,
depois, continuar a vida como se nada fosse?
No final da semana, assim que saísse da fazenda
iria direto para Londres. Já estava cansado do chove não molha e de viver no
limbo… Sempre ali, no limbo. Ligo, não ligo? Falo, não fala? Mal me quer? Bem
me quer? Já estava a chegar ao ridículo essa situação toda. Ok, tinha dito que
não a voltaria a contactar, mas também tinha uma obrigação para com ele próprio
de manter a sanidade mental. Tinha que se manter são! Desse no que desse iria a
Londres e colocar tudo em pratos limpos com a Deborah. Obviamente que o ideal
seria conseguir fazê-la reconhecer que o amor de ambos era real. Obviamente que
o ideal seria ela perceber que não fazia sentido estarem separados.
Precisava de encontrar soluções. Não poderia ir a
Londres sem nada para oferecer, ou sem uma solução que funcionasse para os dois.
Caso a Deborah realmente entendesse que o amor dos dois é real o que poderia
ele oferecer? Porque também é real que ninguém vive só de amor. Estaria
disposto a ir morar para Londres? Não conseguia ver Deborah a fazer o sacrifício
de deixar Londres para ir morar para Luanda. Quem faz isso? Só um louco como
ele… Aliás, a discussão de ambos surgiu mesmo nesse ponto. No que dizia
respeito ao trabalho Deborah tinha uma opinião bem formada. Sentia que
trabalhou a vida toda para chegar àquela posição. Não iria largar assim.
E ele? Também havia construído a sua carreira. Não
estava na posição em que estava porque era filho do patrão, ou algo do género.
Suou muito para chegar onde chegou. Tirou o curso em Portugal, fez um mestrado
em Londres, sempre viajou para fazer mais formações e manter-se atualizado. Trabalhou
de sol a sol, esforçou-se mais do que muitos. E em Luanda? Tinha projetos. Usava
a maioria do seu salário com os miúdos que apoiava. Começou por criar uma equipa
de futebol e treiná-los… Agora, estava a construir um centro comunitário e
tinha intenção de construir mais. Queria fazer a diferença. A vida não fazia
sentido se não fosse para ajudarmos os outros, e fazermos a diferença onde podemos.
Ia deixar isso tudo? E quem ia cuidar dos miúdos por
ele? O José já se havia oferecido, e eles também gostavam muito dele. Era
engraçado como José insistia em tratá-lo formalmente. Era mais que o seu
motorista, era um amigo, um irmão, o seu braço direito… Sim, José poderia tomar
conta dos miúdos. Fernando, sempre que pudesse iria visitá-los. Ok, uma solução
e o resto?
Trabalho? Deixar uma carreira de sucesso para ir
para o desconhecido? Em Inglaterra? Passar o dia todo a ouvir inglês, traduzir
mentalmente para português, pensar em português, traduzir mentalmente para
inglês e depois falar, só para se aperceber que a conversa já havia avançado? Ao
menos, foi essa experiência que teve quando fez o mestrado. Queria passar por
isso novamente? Iria acabar por se habituar, mas… E trabalho? A situação não
estava fácil em Londres. O panorama Brexit que nunca mais encontrava um
desfecho não havia facilitado o mercado de trabalho. E se não encontrasse trabalho?
Tantas coisas para pensar… Fernando, caminhou
distraído pela fazenda. Tentava arranjar uma solução, ou convencer-se que
deixar Luanda seria uma possibilidade e que conseguiria viver com essa decisão
sem culpar Deborah no futuro. Isto é se ela ainda o quisesse, claro. Porque ainda
havia essa questão a pairar no ar.
Tropeçou e caiu. Sem se conseguir aperceber começou
a escorregar pela encosta abaixo, tentou agarrar-se a vários galhos e raízes
pelo chão, mas estava a escorregar em grande velocidade. Tentou virar-se de
barriga para cima, na esperança de ver o que lhe esperava no fim da encosta.
Sem ter tempo de reagir, caiu dentro de um poço. Embateu no fundo e gritou de
dor. Provavelmente com a queda havia partido uns quantos ossos. Perdeu os
sentidos. Quando recuperou os sentidos já era de noite. Ligou a pequena
lanterna, que por milagre tinha sempre nas calças que usava na fazenda, e
observou o cenário à sua volta. O poço deveria ter uns 5 metros de
profundidade. Não era muito mau… O pior é que não havia nada em que se pudesse
agarrar para sair dali.
Tinha cometido um erro de principiante. Nunca se anda
na fazenda sozinho. Nunca se anda na fazenda sem o pequeno walkie talkie. Nunca
se anda pela fazenda sem a mala de apoio. Mala essa que continha um kit
primeiros socorros, navalha, corda… Estava preso dentro de um poço, com pelo
menos 3 costelas e a perna partida, sem forma de comunicar com o mundo exterior,
e pior sem ter dito a ninguém que iria caminhar pela fazenda muito menos em que
direção. Sessenta hectares de vegetação densa e muita dela por desbravar. O
cenário não era positivo. As dores eram imensas. Fernando, pegou na garrafa de
água e analisou a quantidade que havia sobrado. A vida é mesmo assim. Num
minutos estamos vivos, no minuto a seguir nem sabemos…
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