Capítulo 23 – Novo Rumo
Inconsequente.
Não tinha outras palavras para descrever a situação em que se encontrava. Controladora.
Sempre usaram essa palavra para a descrever. A família e amigos acusavam-na de querer
controlar tudo e mais alguma coisa. Principalmente na sua vida. Deborah,
raramente dava passos sem serem pensados e calculados. Definia estratégias com
objetivos concretos em mente. Nada era por acaso, até que…
Até que conheceu Fernando e, agiu sem pensar. Agiu
sem pensar não só uma como várias vezes. Deixou-se envolver emocionalmente, agiu
irracionalmente e irresponsavelmente, ao ponto de colocar a sua saúde e bem-estar
em risco. Onde estava com a cabeça? Sexo sem proteção com um mero desconhecido?
A desculpa irresponsável de que era o seu marido, a desculpa que ambos usaram,
não era sequer desculpa suficiente. Poderia ter apanhado alguma doença séria…
Poderia ter…
Essa possibilidade não estava descartada… Os
resultados dos testes assim o diriam, contudo, algo que não tinha retorno acabou
por acontecer. Uma gravidez! Um bebé! Grávida! Como poderia justificar isso? Como
poderia ela, uma mulher que sempre planeou tudo ao último detalhe, justificar
uma gravidez não planeada? E, como não deu conta? Como foi possível notar que falhou
o período no mês anterior? Como foi possível não associar o ardor e calor no
peito nas últimas semanas? Como foi possível não perceber as pequenas alterações
hormonais? E aquele sono infernal que sentia?
Fernando. Todos os caminhos iam dar a Fernando.
Fernando. Fernando. Fernando. Sempre, Fernando. Todos os atos sem pensamento
prévio aconteceram devido a Fernando. A capacidade que ele tinha de a deixar
sem forças e com o coração acelerado afetava a sua forma de pensar e de agir. E
ali estava, Deborah, aos 39 anos, feitos recentemente, gravidade um homem com o
qual “casou” no prazo de uma semana de envolvimento, separou-se com a mesma
rapidez e já nem sequer tinha o contato.
Até parecia uma anedota. A anedota Deborah. E quais
as opções? Destruir tudo… O projeto e o cargo que tanto lutou para conquistar
tinham simplesmente acabado de ir por água abaixo. Não poderia continuar a
trabalhar no projeto. Seria impossível, dado a sua condição de gestante, continuar
a participar no projeto com a intensidade que lhe era exigida e muito menos com
a longevidade que era esperada. Peter, havia sido bastante claro. O projeto
exigiria tudo de si… Grávida…
- Deborah, se não estás em condições de seguir em
frente com esta gravidez, ainda estás a tempo de a terminar.
- Aborto? Isso nem sequer é uma opção, Laura.
- Como não? O corpo é teu, é uma decisão tua.
- Nem pensar. Nem pensar. Abortar… Terminar uma
vida, muito menos com base no egoísmo…
- Ainda estás grávida de poucas semanas. Podes abortar
e recuperar rapidamente. Poderás ter mais filhos no futuro.
- Nem pensar. Deveria ter pensado nisso quando
consenti dormir com Fernando, uma e várias vezes, sem proteção. A escolha foi
minha. Sabia muito, ou deveria saber que quem anda à chuva molha-se.
- E vais alterar o curso da tua vida porque não
pensaste em proteção. Por lei estás no teu direito. Não é um crime.
- Para mim, é. Para mim, uma criança nasce no momento
em que ambas as células se unem. Está feita. Tenho uma criança a crescer dentro
de mim. Chamem-lhe feto, chamem-lhe o que quiserem. É a minha opinião. Estás a falar
do meu filho ou da minha filha. Não vou cometer uma atrocidade baseada no
egoísmo. A minha vida vai mudar e só terei que aceitar que assim será.
- Temos opiniões diferentes sobre o assunto. Apenas
estava a dar-te a minha, principalmente com base no que me contaste. Não preparaste,
vai dar a volta à tua vida, vai gerar um novo rumo.
- Na volta, o Fernando tinha razão. Estava escrito.
Estávamos destinados a estar juntos. Esquivámos o nosso encontro durante muito
tempo até que não conseguimos esquivar mais. Quem sabe esta criança era o
objetivo.
- Estás decididamente uma pessoa completamente
diferente. Quem te ouve a falar assim vai pensar que realmente, a Deborah que
conhecia, perdeu o juízo.
- Pensa bem, Laura. Tanta coisa que aconteceu.
Agora esta gravidez. Deve ser o destino.
- Há pouco deste um nome bem mais sensato: inconsequência.
Descuidaste-te e pronto. Se quiseres chamar destino…
Deborah, recordou a conversa com a amiga. Laura,
tinha razão. Era uma loucura, tudo era uma loucura, mas, Deborah, não acreditava
em aborto e não iria de forma alguma agir contra os seus princípios. Sim,
abortar seria o caminho mais fácil, mas seria também o caminho mais cobarde.
Não conseguiria perdoar-se nunca, se o fizesse. Há coisas com as quais não se brincam
e o milagre da vida era uma das mais sagradas.
Tinha que contar a Fernando sobre o seu estado. O
fato de já não fazerem parte da vida um do outro não dava a Deborah o direito
de não conversar com ele sobre a gravidez. Infelizmente a opinião dele não
contava. Se ele fosse a favor do aborto, Deborah não iria consentir. Iria
aceitar a sua decisão e criar a criança sozinha. Contudo, independentemente da opinião
e do resultado da conversa tinha que contar-lhe sobre o seu estado.
Teria que aguardar até ao final da semana. Tinha
mais exames para fazer e a primeira consulta pré-natal. Tinha que cuidar da
saúde caso contrário poderia perder o bebé. Entrou no centro de saúde e viu
várias mulheres em avançado estado de gestação. Algumas delas encontravam-se
acompanhadas pelo parceiro. Sentiu uma ponta de inveja e de tristeza. Nunca
pensou em ter um filho nestas condições. Na verdade, nunca pensou em ter um
filho, mas, sempre teve a certeza de que se tal acontecesse não o faria
sozinha.
Ouviu as instruções à risca e ficou descansada quando
a enfermeira explicou que a anemia durante a gravidez era normal. Deborah,
apenas teria que ter mais cuidados com a alimentação e tomar suplementos de
ferro. Saiu da consulta com um pouco mais de coragem do que com havia entrado.
Fez a viagem até Lisboa a dormir no avião. O mesmo
aconteceu na viagem até Luanda. Esta gravidez já era uma bênção, para quem não
gostava de voar, Deborah dormiu e até roncou no voo. À semelhança do que havia
feito há menos de dois meses, Deborah, procurou pelo primo. Nuno recebeu-a com
um sorriso.
- Já de volta? Angola é assim mesmo. Estranha-se,
mas depois entranha. Não consegues ficar longe.
- Angola tem mistério, meu primo. Mas, voltei
porque tenho um assunto muito importante a resolver. – Deborah, não quis falar
sobre a gravidez com mais ninguém antes de falar com Fernando.
- Esse assunto não está relacionado com o… espera,
que eu vou lembrar-me do nome dele… O Fernando. É isso… O Fernando…
- Infelizmente, tem primo. É um assunto relacionado
com ele.
- Eu apercebi-me no dia em que jantamos que havia
ali uma química muito forte entre vocês e apostei com o Francisco que não tarda
estarias de volta.
- Foi assim tão evidente? – Deborah, corou.
- Mais do que evidente. Estás no teu direito,
prima. Também tens de viver. A tua vida é só trabalho, tudo controlado. Fazes
bem em permitires-te viver de vez em quando.
- Se tu soubesses, meu primo, o que eu já vivi por
causa desse Fernando.
- Estou aqui. Se quiseres falar…
- Eu sei, meu primo. Eu sei. Contudo, neste momento
preciso de ir até à Mota Engil. Tenho de encontrar o Fernando.
- Não tens o número dele?
- Perdi. Outra história longa… Perdi e preciso
mesmo falar com ele…
- Lamento informar-te que terás que esperar mais um
dia. Caso não tenhas reparado hoje é domingo.
Deborah, suspirou fundo. Tinha perdido noção do
tempo. Tinha que aguardar mais um dia para falar com Fernando. Tinham muito sobre
o que falar e ela não sabia por onde começar. O melhor seria entrar logo a
matar com a bomba de que iria ser pai. Tremeu de medo a imaginar qual seria a
reação dele, contudo agora era tarde demais para pensar nisso. Os atos já
estavam consumados, agora teriam que aceitar as consequências.
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