Capítulo 24 – Nostalgia
Perdeu
várias vezes os sentidos. Perdeu a noção do tempo. Sentia o corpo a arder em
febre. Perdeu as esperanças. Fernando, aos poucos, aceitou que aquele seria o
fim. Sentiu pena da mãe… Sentiu saudades. Já há muito que não a visitava. Muito
pelo contrário, era a mãe que acabava sempre por fazer as visitas e ficar por
longas temporadas em Luanda. Sentiu-se culpado. Era um mau filho, não ligava todas
as semanas e, muitas vezes ficava meses sem ligar.
Era impressionante como quando chegamos ao final da
vida pensamos no que poderíamos ter feito melhor. Não conseguia focar-se no que
fez de bom. Nos momentos em que recuperava a consciência apenas pensava no que
poderia ter feito melhor. Quando saísse dali… O melhor seria encarar a realidade,
nunca mais sairia dali. Era o fim da linha. O fim do poço… Irónico, no fundo do
poço…
A dor deixou de ser um fator. Não que tenha deixado
de doer, simplesmente habituou-se, ou simplesmente ficou sem energias. Não
tinha forças para gritar, não tinha forças para sentir dor. Conseguiu abstrair-se
do corpo. Os de meditação ajudaram bastante… Queria partir consciente, em paz
consigo mesmo.
Tirando o pouco contato com a mãe, Fernando só
tinha mais dois arrependimentos. Um, era deixar este mundo sem deixar um filho.
Sem deixar quem desse continuidade ao nome da família. Tantas foram as vezes
que a mãe pediu um neto. O outro era Deborah. Não se comportou como devia, mas
agora era tarde. Já não podia fazer nada. Já não havia mesmo nada a fazer. Só
podia esperar o fim… Esperava que a mãe o perdoasse e que conseguisse seguir a
vida em frente. Tinha a filha para a consolar.
Daniela, iria ficar destroçada. Apesar de não
passarem muito tempo juntos, Fernando e a irmã, eram muito cúmplices. Surpreendeu-se
ao perceber que não tinha falado com a irmã sobre Deborah. Aconteceu tudo tão
rápido… Daniela, sempre o incentivou a assentar, a encontrar o amor da sua
vida. Sempre foi a única que concordou que ele era homem de uma mulher só e que
devia esperar o tempo que tivesse que esperar até encontrá-la. Ficou triste ao
perceber que iria partir sem que a irmã soubesse que ele tinha encontrado realmente
a mulher da sua vida.
Ouviu vozes… Ouviu vozes, ao fundo. Pareciam vozes…
Tentou gritar, mas só conseguiu gemer… Gemeu e tentou pedir socorro… Reconheceu
a voz, era a mãe. Era a voz da mãe. Pedia-lhe para deixar de ser teimoso e
acabar de tomar a sopa. Estava em casa, tinha uns 10 anos, o pai já não estava…
Já tinha partido… Não podia ser a mãe, ele não estava em casa, já não tinha 10
anos… Estava num poço, algures em Golungo Alto… Alucinar… Estava a alucinar… O
pai, alto, sorriu para ele. Ajudou-o a levantar. Estavam a jogar à bola.
Fernando, esfolou os joelhos. O pai disse-lhe que na vida ia esfolar muitas
vezes os joelhos, quando estivesse a correr atrás dos seus objetivos. Tal como
no futebol, só tinha que se levantar e voltar a tentar…
Procurou o cantil de água, estava vazio… Os lábios
gretados e em ferida… Não queria terminar assim… Não podia terminar assim…
Ainda tinha tanta coisa para fazer…. Tinha que pedir desculpa à mãe. Tinha que ter
um filho. Tinha que deixar o centro comunitário terminado. Ainda tinha tanto
para fazer… Ainda tinha tanto para fazer… Não queria acabar assim… Precisava de
beijar Deborah nem que fosse mais uma vez. Tinha tanta coisa para fazer…
Há mais de seis dias que as buscas na Fazenda Boa
Vontade se faziam sem parar. Formaram-se vários grupos. Dispersaram-se em
várias direções. Começaram a perder a esperança. Se não o haviam encontrado até
agora dificilmente o encontrariam com vida. Senhor Leão, o capataz da Fazenda, coordenava
as equipas de busca. Tinha que o encontrar, vivo ou morto, tinha que o
encontrar. Ninguém podia desaparecer assim da Fazenda. Para além de ser uma
desgraça da qual dificilmente alguém se conseguisse recuperar, seria também o
fim do Projeto Fazenda Boa Vontade. Qual seria o turista que iria tirar férias
num local onde as pessoas desaparecem sem deixar rastro?
O mapa que haviam preparado para as buscas estava
todo riscado. Já havia muito pouco terreno para desbravar. Tinham percorrido
mais de 50 hectares, a pente fino. E, a seu ver, Fernando não poderia estar muito
longe, porque tinha saído a pé. Lembra-se da última vez que o viu, a caminhar
em direção ao rio. Começou a busca por aí na esperança de o encontrar…
O dono da Fazenda, o senhor Castro Paiva, convocou
uma reunião com todos os trabalhadores e voluntários. Fez um pequeno discurso convencendo-os
que tinham que se preparar para o pior. Leão, sentiu que se aceitasse aquelas
palavras estaria a admitir o seu fracasso.
José, juntou-se às buscas. As notícias do
desaparecimento de Fernando só haviam chegado à Mota Engil no dia anterior,
passado 5 dias do desaparecimento. Provavelmente tentaram gerir a crise sem a
intervenção da empresa, mas a realidade era que Fernando continuava por
encontrar… Temia pela vida do patrão, do amigo, quase irmão… Tentou esconder as
lágrimas de desespero. Fernando estava vivo, ainda tinha muito para viver. Era
um homem forte, estava vivo, tinha a certeza…
Fernando, fechou os olhos e pediu à morte para vir buscá-lo.
Não tinha mais forças para aguentar e o escudo protetor contra as dores já
tinha perdido o efeito. Gemia em agonia, gemia de fome, alucinava. Pedia pelo
fim… Queria fechar os olhos e nunca mais, nunca mais mesmo acordar. Viu o pai a
caminhar até si. Deu-lhe a mão para o ajudar a levantar. Não tinha forças, pediu
perdão ao pai, não tinha mais forças para continuar… Não tinha lágrimas para chorar…
Vozes… Vozes ao fundo… Mais uma alucinação… Não vale
a pena gemer. Não é ninguém… Gritos… Mais perto… Fechou os olhos. Pediu à morte
para o levar. Sentiu a morte a levantá-lo. O corpo ficou leve e a pairar no ar.
Obrigada. Obrigada, morte. A morte voltou a poisá-lo no chão. Colocou os braços
à sua volta e elevou-o. Sentiu o corpo a girar… Afinal, era assim, a morte… A
morte era delicada, gritava alto, mas era delicada. Pousou-o novamente. A morte
chorou… Molhou-lhe o rosto. Está vivo, disse a morte. Está vivo.. A morte
abraçou-o. A morte falou com uma voz trémula…
- Doutor, tenha forças. Lute. Lute. Vai correr tudo
bem.
A morte era tramada, até a voz de José conseguiu imitar.
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