Capítulo 25 – Decisão
Tentou
descansar por umas horas. Ultimamente, sentia-se sempre muito cansada e só lhe
apetecia dormir. O sono, porém, era agitado. Por mais que quisesse dormir, não
conseguia. O pensamento levava-a sempre para Fernando. Sentia-se magoada e
triste. Tudo bem que ela havia pedido que ele nunca mais voltasse a ligar, mas…
Ele nem deu luta. Nem sequer tentou. Para quem dizia que ela era o amor da sua
vida…
Luanda estava quente. O calor era sufocante. Deborah,
sentou-se no quintal do primo a observar as sobrinhas brincar. Em breve também
ela traria uma criança ao mundo. O pensamento assustava-a. Não o queria fazer
sozinha. Não estava preparada. Ser tia e madrinha é mais fácil. Brincamos,
mimamos e depois devolvemos às mães. Quando o filho é nosso não se pode
devolver.
A vida ia mudar… O trabalho… Deborah, não estava
preparada para deixar de trabalhar, mas também não concebia continuar a
trabalhar depois de ter o bebé. Pelo menos por um tempo… Queria acompanhar o
crescimento, estar presente em cada momento… Crescem tão rápido. Sozinha? Iria
criar uma criança sozinha? Esperava no seu íntimo que Fernando fizesse parte
desse crescimento. Como? Mesmo que ele quisesse participar, como? Morar em
Luanda? Criar uma criança em Luanda? Olhou para as sobrinhas novamente. Eram
lindas, saudáveis, e por que não? Se tivesse de ser também poderia cuidar da
sua família em Luanda… Por uns tempos, até voltar a trabalhar…
Luísa, aproximou-se da prima e ofereceu-lhe um sumo
fresco.
- O que se passa, Deborah. – perguntou preocupada.
- Ah… Nada. Estava aqui a ver as meninas brincar.-
respondeu com meias verdades.
- Sim, mas há mais não há? Sabes que podes contar
comigo.
- Luísa… - Deborah, olhou para a esposa do primo e
não conteve as lágrimas que se haviam acumulado. Contou a Luísa tudo o que se
passou com o Fernando, a visita dele, o fim de semana, o casamento, a discussão,
a ausência, a gravidez…
- Tens passado por isso tudo sozinha, prima? –
Luísa, perguntou enquanto a abraçava.
- Tenho a Laura, ela ajuda-me muito.
- E não contaste isto a mais ninguém. Já falaste
com a tua mãe?
- Não. És a segunda a saber. Queria falar com
Fernando primeiro, sabes? Acho que lhe devo isso.
- Claro que tens de contar ao Fernando, mas não
podes deixar essas coisas aí dentro. Tens de te libertar. Não te sufoques.
Ninguém espera que sejas uma super heroína.
- Aí é que te enganas, Luísa. Estão sempre à espera
que a Deborah não falhe. Estão sempre à espera de que a Deborah aja de forma
correta. Nunca param para perguntar se a Deborah precisa de ajuda…
- Prima, tu não te permites. Tu não permites que as
pessoas se aproximem de ti. És arisca. Eu própria, estava aqui a pensar como abordar-te.
Senti-te tão triste… Aproveitei o momento em que baixaste a guarda com as
meninas. Por vezes, também tens de deixar as pessoas entrar.
- Eu sei. Tens razão. Mas é tão difícil. Estou
habituada a fazer tudo, a tratar de tudo e de todos…
- E quem cuida de ti? Tens de deixar que cuidem de
ti…
- Agora terei um filho para criar.
- Não o vais fazer sozinha. Pelo pouco que me
contaste acho que o Fernando nunca o permitiria. Ele parece um bom homem. Eu vi
a forma como ele olhava para ti no jantar, e falava contigo. A forma como vocês
nos abandonaram na marginal e ficaram no vosso mundinho.
- Foi mau, não foi? Esqueci-me de vocês por
completo. – Deborah, sorriu envergonhada.
- Achei mais do que normal. A nós temos sempre, com
ele tinhas o tempo contado e se sentiram essa ligação…
- Foi muito cedo, não foi? Tudo tão rápido. Que loucura.
- Queres que eu seja sincera, contigo? Eu e o teu
primo começamos a namorar uns meses depois de nos conhecermos. Contudo,
confesso que no primeiro dia em que eu o vi, eu soube que se ele o permitisse
eu queria passar o resto da minha vida com ele.
- A sério? A sério, mesmo?
- Claro. Acho que a maioria de nós sabe. Temos é
medo de ouvir o nosso instinto e acabamos muitas vezes por perder tempo.
- Então não é loucura? Tudo o que se passou?
- Não. Não é loucura. Vocês é que foram inteligentes
o suficiente para aproveitar ao máximo e depois… Depois deixaste o medo tomar
conta.
- Não sei se foi medo.
- Acho que sim… Entraste em pânico só de pensar que
de repente tens de tomar decisões em conjunto com outra pessoa, principalmente
sobre a tua vida.
- Meu trabalho, prima. Minha profissão. Minha vida.
- Pois, aí é que te enganas. Vossa vida. Tu fizeste
votos de amor eterno e de levar uma vida em conjunto. Está bem que ainda não
tinham decidido como o fazer, entendo essa parte. Mas, poderias ter consultado,
ou informado de outra forma. A partir do momento em que decides unir a tua vida
a alguém todas as decisões devem ser tomadas em conjunto. Isto é casamento.
Isto é compromisso…
- Errei, não errei, Luísa?
- Sim, prima. Erraste. Mas errar é humano. Agora amanhã
vais corrigir as coisas.
- Achas que ele vai perdoar-me? Ele nem sequer
ligou para mim. Tudo bem que eu disse para não o fazer.
- O Fernando é homem, também tem orgulho. Mas,
acredito que quando vocês se virem tudo
mudará. E quando ele souber que vai ser pai…
- Não acredito nisto que me está a acontecer.
- É a melhor sensação do mundo, Deborah. Não deixes
de viver e saborear este momento. A tua paixão, o teu amor pelo Fernando, o vosso
filho, ou filha, que vem a caminho… Vive, o Fernando vai ajudar-te em tudo.
Estás a ver a situação como se fosses só tu envolvida. Vocês são dois.
- Estou mais aliviada. Obrigada por me ouvires, por
me aconselhares…
- Primas são para isso mesmo, não são? Agora, vamos
comer que deves estar esfomeada.
Após a conversa com Luísa, Deborah, sentiu-se em
paz. Pela primeira vez em algum tempo conseguiu dormir a noite toda.
Saiu cedo, com o motorista, e foi direto para a Mota
Engil. Iria pedir para falar com Fernando. Iria vê-lo. Estava ansiosa por
voltar a vê-lo e se tudo corresse bem, voltar a estar nos braços dele. A rapariga
da receção não foi prestável. Disse que o Engenheiro Fernando não estava no
escritório e que estava fora em serviço. Recusou-se a dar-lhe o contacto.
Deborah, insistiu sem sucesso.
- Se quiser, pode deixar recado. Não sabemos quando
o Engenheiro Fernando regressará da obra. E, onde eles estão, têm muito pouca
rede e ficam praticamente incontactáveis.
- Mas, eu preciso mesmo falar com ele. Preciso
muito. Por favor, dá-me o contacto.
- Não posso passar essa informação. Deixe recado e quando
ele voltar contacta-a.
- É urgente, não posso esperar…
- Não posso ajudá-la, senhora. Deixe recado e ele
ligará.
Deborah, resignou-se e pediu um papel e uma caneta.
Escreveu uma pequena carta a Fernando. Disse que aguardaria pelo seu contacto e
que depois regressaria a Londres. Esperou a semana toda. Ou ele ainda não havia
regressado ou não queria saber dela. O mais provável era que ele não quisesse saber
dela. Pelo que se lembrava, das suas conversas, ele nunca ficava mais do que
uma semana na obra. E, se já tinha ido a semana passada, como disse a
rececionista, por esta altura já devia ter regressado.
Tudo não tinha passado de uma fantasia, de uma loucura.
Fernando, não tinha o mínimo interesse de reatar com ela, se quisesse já o teria
feito. Teve muito mais do que um mês para o fazer. O amor que ele dizia ser
para a vida toda só havia durado uma semana. Burra tinha sido ela em acreditar
que ele seria diferente. Os homens são todos iguais. Só estão satisfeitos
quando as coisas acontecem da forma como querem, como ele percebeu que não a
conseguiria dobrar desistiu. Desistiu dela, como todas as pessoas desistem.
Entrou no avião decidida a esquecer Fernando. Iria criar a criança sozinha.
Sempre fez tudo sozinha e não seria desta vez que as coisas haveriam de ser diferentes.
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