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Capítulo 26 - Limbo


Capítulo 26 – Limbo

            Leão e José, carregaram a maca de Fernando, até à carrinha…  A equipa médica do Hospital Municipal do Golungo Alto já se encontrava a aguardar o paciente. Fernando, estava novamente inconsciente. Passaram-se horas até que houvesse notícias… José, nervoso, dava as notícias à Dona Eva, mãe de Fernando. Dependendo do quadro clínico, Fernando seria transportado para Luanda.
 Na sala de espera o silêncio era ensurdecedor. O dono da Fazenda, o senhor Castro Paiva, aguardava com os olhos postos na porta, aos sobressaltos sempre que houvesse algum movimento. O afeto que sentia por Fernando, era o afeto de um pai para um filho. Fernando era mais do que um profissional. Era atencioso, meticuloso e desde o início abraçou o projeto como se tratasse da sua própria fazenda. Não seria justo que a fazenda lhe tirasse a vida.
Senhor Leão e José, olhavam cabisbaixos para o chão. Ninguém se atrevia a respirar alto com medo de perturbar o que quer que fosse que se estivesse a passar no bloco operatório. Passadas horas intermináveis, a Doutora Luísa, entrou na sala com um ar estafado. Levantaram-se os três…
- São familiares do Senhor Fernando? – perguntou exausta.
- Não. Os familiares encontram-se neste momento a caminho de Luanda. Vivem em Lisboa. Não sabiam do que se estava a passar até o termos encontrado… A empresa não quis dizer nada na esperança…
- Entendo. Não posso dar muitos detalhes sobre o quadro clínico do paciente, sem ser a familiares próximos. Posso apenas dizer que o paciente se encontra em estado crítico e que os familiares deveriam ser avisados. As próximas 48 horas serão decisivas. Há a hipótese de transportar o paciente para Luanda, mas está muito debilitado e não sabemos se iria aguentar a viagem até lá. Vamos aguardar…
- Temos de avisar a família… José, tem estado em contato com a mãe do Fernando, certo?
- Sim, senhor. A mãe do doutor está neste momento no avião de Lisboa para Luanda. Ela deve chegar daqui a algumas horas. A ideia seria que ela ficasse por lá até ele ser transportado para o Hospital de Luanda, mas vou tratar de ligar para a cidade e pedir que preparem tudo para encaminharem a Dona Eva para cá. Pelo que sei a Mota Engil, irá disponibilizar um helicóptero…
- Eu vou ligar para a Pensão da Dona Rosalina, para prepararem o melhor quarto, para receberem a Dona Eva. Parece-me que vão ficar por algum tempo. – Falou com uma certa tristeza.
Ninguém arredou pé da sala de espera. Dona Eva, chegou várias horas depois, exausta, e apoiada à filha, Maria. Sentaram-se ao pé de José, e aguardaram pelas novidades da médica. A doutora Luísa, direcionou Dona Eva até ao quarto onde Fernando se encontrava.
- O quadro clínico mostra algumas melhoras. Parece estar a responder ao tratamento. Contudo, continua inconsciente e ainda não está em condições de ser transportado. O risco ainda é elevado. Convém aguardarmos.
- O meu filho vai acordar, doutora? Pode dizer-me a verdade… Prefiro que me diga.
- O seu filho está a lutar para acordar. Estamos a fazer tudo ao nosso alcance para o ajudar. Só posso dizer-lhe isso.
- Precisam de algum apoio aqui no hospital, para ajudar o meu filho? O que for que precisarem eu posso providenciar. Medicamentos, tudo o que for preciso… - Dona Eva, falou desesperada.
- Neste momento, minha senhora, o melhor que pode fazer é sentar-se ao lado do seu filho para que ele sinta a sua presença, o seu amor… A medicina cura, mas o amor também ajuda muito.
- Compreendo. Podemos entrar as duas? – Perguntou Dona Eva, agarrada à filha, Maria, que se manteve calada o tempo todo.
- Sim, claro. Venham comigo.
Dona Eva, olhou para o filho e começou imediatamente a chorar. Maria, abraçou a mãe e confortou-a.
- Vai ficar tudo bem, o Fernando é forte, mãe. Tu sabes que ele é forte.
- Olha para o teu irmão, minha filha. Ligado a máquinas, está mais magro do que quando tinha 16 anos. Olha para ele… Eu avisei… Eu pedi-lhe para não vir para Angola, esta terra que nos desgraçou. Eu pedi-lhe para ficar, casar, construir uma família em Portugal. Mas não, tinha de ter saído ao pai e viver de sonhos…
- Mãe, não é tempo e hora para isto. Vais culpar o pai, também, por isto?
- O teu irmão é tão parecido com ele… E se tiver o mesmo fim? Não estás a ver isto a repetir-se? Não estás a ver, minha filha?
- Mãezinha, o pai faleceu a defender aquilo em que acreditava. E, infelizmente, se o mesmo acontecer com o meu irmão, posso sempre orgulhar-me dos homens da minha família, que sempre seguiram os seus princípios…
- E ficamos sozinhas, filha? A família devia vir sempre primeiro. Esta terra matou o teu pai, e vai levar-me o filho…
- Mãezinha, nós estamos aqui para rezar pelo Fernando, para ele melhorar. Vamos acreditar que isto vai acontecer.
- Só uma mãe sabe pelo que estou a passar. Tens razão, filha. Tens razão. Deus não vai permitir tal coisa.
Dona Eva, sentou-se e agarrou a mão do filho. Maria, deu um beijo na testa do irmão, e sentou-se do lado oposto a ler-lhe um dos seus livros favoritos. Passaram-se várias horas e vários livros e nem sinal de Fernando apresentar melhoras.
A médica e as enfermeiras, fizeram várias rondas, e cuidaram de Fernando o melhor que podiam. Infelizmente, mesmo elas começaram a perder a esperança. Fernando estava estável, mas não sabiam se ele iria acordar e como iria acordar.
Fernando, tentou mexer-se. Conseguia ouvir tudo o que se passava à sua volta, mas não conseguia acordar. A mãe a chorar, a irmã a ler, as enfermeiras a tirarem notas… Precisava acordar… Focou toda a sua atenção nos olhos e tentou abri-los. Será que tinha piscado? Sentiu algum movimento. Tentou novamente… Vá lá Fernando, força. Abre os olhos. Pensou para si… Esforçou-se novamente e conseguiu ver um rasgo de luz. Piscou os olhos... Voltou a abri-los.
Maria, sentiu os movimentos do irmão e levantou-se de repente. Olhou para ele com lágrimas nos olhos e beijou-lhe o rosto. A mãe abraçou o filho. Maria correu a chamar a médica e as enfermeiras. Todas correram ao quarto. A médica pediu espaço e calma. Começou a analisar Fernando. Falou com ele calmamente. Ele respondeu com piscar dos olhos… Tinha pouca força para mover o corpo. Mas, sim, sentia o toque. Piscou uma vez para sim, duas vezes para não. A médica decidiu mudar a medicação e pediu para o deixarem descansar, iria voltar em breve. Tinham de o levar para fazer mais análises…
Dona Eva e Maria ficaram no quarto com Fernando. Fernando, abriu novamente os olhos, desta vez com mais facilidade. Entreabriu os lábios.
- Tenho de cair ao poço mais vezes, para ficar rodeado de tanta mulher.- brincou com uma voz sumida…
- Eu sabia que ias acordar. Eu sabia. – Maria abraçou-o com força.
- O poço não me matou e tu vais dar cabo de mim com esse abraço. – respondeu à irmã…
- Desculpa. Desculpa.
A mãe olhava para ele com os olhos cheios de lágrimas.
- Não sei o porquê de tanto drama, sabem bem que eu sou um osso duro de roer…

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