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Capítulo 28 - Ajuste


Capítulo 28 – Ajuste

            Passaram-se meses… No início, Fernando foi transferido para o hospital em Luanda e posteriormente para Lisboa. Fernando, tentou manter uma atitude positiva, mas havia dias em que era complicado controlar as emoções.
 - Provavelmente o senhor nunca mais vai conseguir andar. Existe uma hipótese remota com o apoio da fisioterapia, mas as taxas de sucesso nestes casos são mínimas.
Essas tinham sido as palavras de três médicos. Primeiro no Golungo Alto, depois em Luanda e por último em Lisboa. Todos eram da mesma opinião. Só que nenhum deles conhecia Fernando. Se havia uma hipótese remota ele iria agarrar-se a esses números. Nunca gostou de pertencer às massas, sempre prezou por fazer parte da minoria. Desta vez, tinha mesmo de fazer parte da minoria.
Todos os dias voltava ao poço… Acordava suado e confuso. Não fazia ideia de como conseguiu sobreviver. Não fazia ideia de como o conseguiram encontrar. Estava grato por estar vivo. As pernas e a impossibilidade de uso das mesmas eram apenas um pormenor. Mais uma história para contar.
Fernando, pensava todos os dias em Deborah. Antes de cair ao poço não pensava em outra coisa sem ser ir vê-la e esclarecer a situação deles. Estava a dar em doido com a discussão e como as coisas tinham acabado entre eles. Mas, havia o antes e o depois do poço. Depois do poço ele não estava completo. Imagine-se, tocar à campainha sentado numa cadeira de rodas. Passar aquele corredor estreito da casa dela e não conseguir passar entre a mesa  e o sofá… Depois de passar essa vergonha, levantar as flores e o pescoço, porque ela estaria mais alta do que ele, e pedir-lhe para casar com ele novamente, de verdade… Uma pessoa com deficiência…
Deborah, tinha o futuro bem planeado. E, se não conseguiu incluí-lo no que toca a uma decisão de carreira, imagine-se abrir espaço para um aleijado na sua vida. Não… Não podia ser. Iria fazer toda a terapia do mundo e apresentar-se a ela um homem completo… Essa era a sua motivação. Deborah… Sempre, Deborah…
Contou a história à irmã. Daniela, apesar de já ter casa própria, jantava com ele e com a mãe todos os dias. Voltaram a estar tão próximos como antigamente. Contou-lhe tudo. Como conheceu Deborah, as coincidências e os desencontros do destino, a visita a Londres, o dia em Paris, o casamento.. Mostrou-lhe as fotos, imprimiu-as novamente e criou um álbum semelhante ao que enviou para Deborah, e contou-lhe da noite de amor.
- Não achas que foste um pouco bruto? A forma como abordaste o assunto…
- Eu sei, Daniela. Sei lá o que me deu, um sentimento de posse. Sei lá. Raiva… Ciúme… Ela não pensou em mim nem um minuto.
- Fernando, vocês tinham acabado de “casar” como se vê nos filmes. Não tiveram tempo de se reajustar e voltaram para a vossa vida “real”. A Deborah, sempre tomou as decisões dela sozinha, estavas à espera de que em um dia, ela simplesmente mudasse a forma de pensar.
- Tens razão. Eu sei.
- Então porque não ligaste para ela? Porque deixaste as coisas assim?
- Eu ia ter com ela, quando saísse da Fazenda Boa Vontade. Já tinha o bilhete preparado. Ia pedir desculpa, falar cara a cara. Ela pediu-me que não a contactasse, eu ia pedir que ela o dissesse a olhar para mim. Se a decisão continuasse a mesma eu sairia da vida dela para sempre.
- Ainda vais a tempo. Liga, fala com ela.
- Assim, nesse estado? Não estou a ver a Deborah a adaptar a vida dela a um inválido.
- Tu não és inválido. Apenas tens uma deficiência e tens de te adaptar, só isso. E, se o vosso amor fosse tão mágico assim, não vejo onde estaria o problema.
- Não sobrevivemos uma discussão sobre trabalho… Vamos sobreviver uma relação a três: ela, eu, e a cadeira de rodas. – Falou ironicamente.
- Eu acho que devias falar com ela. Deixa de ser casmurro.
- Eu vou… Eu vou fazer a minha fisioterapia e vou ter com ela… Vou olhar para ela apoiado nas minhas duas pernas.
- E se isso não acontecer, Fernando? Como vais fazer?
- Vou sonhar com ela para o resto dos meus dias… Não vou ser um fardo para a Deborah, e duvido que ela me quisesse. Enfim, tudo isto são suposições. Suponho que ela já tenha seguido a vida dela. Se quisesse falar comigo, já tinha telefonado.
- Na volta é tão casmurra como tu, por isso apaixonaram-se.
- Eu vou ficar melhor, Daniela. E vou até ela… Se o sentimento dela for tão forte como o meu, ela não me esqueceu.
- Então se assim for, não achas que ela está a sofrer por não dizeres nada?
- Não estou preparado. Neste momento não sou homem para ela, vou voltar a ser…
Fernando, fazia quatro horas de fisioterapia por dia. Seguia as indicações dos médicos à risca e fazia exercícios regulares. Adaptou o escritório em casa da mãe e começou a trabalhar por casa. Continuava a liderar o Projeto Fazenda Boa Vontade, mesmo à distância. Sentia-se grato por ter mantido o emprego. Deixava-o ocupado e com menos tempo para pensar em Deborah.
José, ligava várias vezes e mantinha-o a par do desenvolvimento do Centro Comunitário. Estava quase pronto. Fernando, em breve teria de viajar para Luanda para o inaugurar. Fernando estava reticente. Ainda estava na cadeira de rodas, e apesar dos progressos não sabia se iria conseguir sair dela. Sentia-se frustrado, mas não deixava a esperança morrer. Como iriam olhar para ele quando chegasse à empresa, preso na cadeira de rodas? Tinha de arranjar forma de que não o vissem dessa forma. Iria mostrar que nada mudou.
Viajou para Luanda. A mãe pediu-lhe que não fosse, mas como não o conseguiu convencer acabou por viajar com ele. Apesar de inicialmente ter ficado chateado, ficou feliz por ter o apoio da mãe. Tinha-se habituado a estar com ela e iria cumprir a promessa de ser um filho mais presente. O destino, havia-se encarregado de o tornar mais dependente da mãe, por isso a presença deixava de ser um problema.
No dia de regresso à empresa, os colegas prepararam uma receção com direito a balões, e comes e bebes. Saudaram-no e estavam genuinamente felizes com o seu regresso. Estava tudo igual e até o escritório dele continuava com a desarrumação que ele havia deixado. Não vinha para ficar em Luanda, mas sentiu-se bem ao ser recebido calorosamente pelos colegas.
Após as celebrações todos voltaram ao trabalho. Fernando, olhou para a mesa de trabalho e começou cuidadosamente a separar e a arrumar as coisas. Viu um envelope em cima do teclado, coberto de pó, que dizia: Fernando.
Curioso, abriu o envelope e começou a ler. Não conteve as lágrimas e releu mais uma vez.
“Fernando, não foi um sonho. Vim a Luanda para dizer-te pessoalmente que não foi um sonho, mas não te encontrei. Disseram-me que tinhas saído em trabalho e não sabiam quando voltavas. Pedi o teu contato, mas não o deram. Sabes, num momento de raiva apaguei o teu número e mensagens. Sabes como nós as mulheres às vezes fazemos coisas estúpidas. Enfim, fiquei sem o teu número. Esperei que me ligasses, mas depois lembrei-me de como te pedi para que nunca mais me ligasses. Se te conheço nem que seja um bocadinho, duvido que o faças sem uma luz verde da minha parte. Aqui tens a minha luz verde. Não foi um sonho. És o homem da minha vida. Não estava preparada, fui apanhada de surpresa. Casaria contigo vezes e vezes sem conta. Se eu sou a mulher da tua vida, liga-me. Vem buscar-me. Estarei à tua espera. Para sempre, tua. Deborah.”

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