Capítulo 9 – Dúvidas
A viagem para Lisboa, foi longa. Deborah, que optou
por apanhar o voo da noite na esperança de dormir a noite toda, não conseguiu descansar.
O encontro com o Fernando não saia da cabeça. A intensidade do que sentia a olhar
para ele, a impotência perante o seu toque… Não era possível alguém sentir isto
por uma pessoa em tão pouco tempo.
Defendeu-se com a solidão. Há algum tempo que se
sentia sozinha. Olhava para a sua vida tão preenchida profissionalmente, mas
tão vazia emocionalmente. Desculpava-se com a falta de tempo. Dizia sempre que
não havia tempo para namorar, afinal, na sua agenda tão preenchida, onde haveria
lugar para um namoro? Agora, ao conhecer Fernando a necessidade de ter alguém
ao lado aumentou.
Parecia loucura. Que sensação era aquela? Que
sentimento? Por que motivo sentia-se tão confortável nos seus braços? Que
vontade era aquela que ele despertava? Era mesmo verdade que ela pediu-lhe que
dormisse com ela? Envergonhou-se com esse pensamento. Só queria estar nos seus
braços… Naquele momento só queria senti-lo…
Estava decididamente a perder o juízo. Permitir que
um estranho ocupasse o seu pensamento desta forma. Permitir que um estranho derrubasse
uma barreira erguida há tanto tempo. Uma barreira criada com a completa noção
de que os relacionamentos apenas nos magoam e machucam porque esperamos que as
pessoas comportem-se como nós quando elas apenas conseguem comportar-se como elas
mesmas.
E o Fernando? Que relação seria possível? Um homem
que vivia a milhares e milhares de quilómetros de distância? Prometeu que iria
visitá-la no espaço de duas semanas. Prometeu que iria levar uma vida inteira a
provar que era a mulher da sua vida. Agora que pensava nas suas palavras achava-se
ainda mais ridícula. Como era possível? A mulher da vida dele. Será que ele
acreditou que ela caiu mesmo nessa história?
Era óbvio que tudo não passava de um engate… Mas, se
assim o era, por que motivo não quis dormir com ela? Por que motivo não a levou
para a cama? Teria o que queria ali, naquele preciso momento se fosse preciso.
Todas as suas defesas estavam em baixo, ele poderia ter tirado toda a vantagem
dela, pior, com o seu consentimento. Então, por que não fez?
E a sua reação? O que era aquilo? O corpo
derretido, o coração acelerado, a segurança que sentia quando ele penetrava no
seu olhar? Aquela sensação de que tudo iria ficar bem… Ele pareceu-lhe tão sincero…
Quando colocou a mão no peito dele, quase desmaiou de emoção. O coração dele
estava completamente acelerado… Tão acelerado quanto o dela. Esse tipo de
reação não se finge… Ele era real… Era muito real… Só podia ser real…
Ridícula? A quem queria enganar? A realidade dos
homens sempre foi supérflua. Ali estava ela a perder o juízo a tentar
questionar uma relação impossível. De repente, sentiu-se mais exausta. Só
queria ir para casa e deitar-se no seu cantinho, na sua zona segura.
Assim que aterrou em Lisboa, dirigiu-se ao balcão
da Easyjet e tentou alterar o bilhete para Londres. Queria ir o quanto
antes. Tinha comprado o bilhete para regressar apenas dois dias depois e ter a
oportunidade de ficar em Lisboa mais tempo, contudo, naquele momento só queria
ir para casa. Conseguiu o voo e nem sequer chegou a sair do aeroporto. Dirigiu-se
novamente para as partidas e entrou no avião. Ainda tinha alguns minutos antes
de descolarem e decidiu ligar o telemóvel para enviar uma mensagem à família e
dizer que tinha aterrado bem em Lisboa.
O telefone estava carregado de mensagens dos
primos, da mãe, do pai, de alguns amigos… Respondeu a todos, de forma muito
breve, e preparou-se para desligar o telefone. Sentiu uma ponta de tristeza ao
notar que não recebeu nenhuma mensagem de Fernando. Provavelmente já a tinha
esquecido. Burra era ela ao querer acreditar que ele falava a verdade… Parecia
tudo tão real… Desligou o telemóvel e tentou fechar os olhos.
Por mais cansada que estivesse não conseguiu dormir
no voo. Chegou a Londres, Gatwick, e a realidade da Inglaterra tirou-a
do transe. Um frio de rachar, chuva, o céu cinzento… A depressão entrou de
imediato e sentiu-se ainda mais miserável. O inverno em Londres era a pior
parte para ela. Não conseguia conformar-se com aquele céu cinzento, desprovido
de alegria…
Após mais de três horas, entre apanhar a bagagem, recolher
o carro e conduzir, chegou a casa. A auxiliar de limpeza, conforme instruções,
deixou a casa limpa, bem cheirosa e aquecida. Sentiu a familiaridade do seu lar
e pela primeira vez, nas últimas 24 horas, sentiu-se segura. Colocou o casaco no
bengaleiro à entrada, retirou os sapatos e colocou-se alinhados na sapateira, e
subiu para o quarto. Gostava da ordem que tinha em casa. Tudo no seu lugar,
tudo como deve ser… Desordem gerava confusão na sua cabeça, e, já bastava a
confusão que por lá estava.
Preparou um banho de imersão e preparou uma taça de
vinho. Entrou na banheira e deixou-se estar por algum tempo. Conseguiu finalmente
relaxar. Colocou a camisa de dormir e ligou o telemóvel. Preparou um chá de
camomila, aninhou-se no seu cadeirão de leitura e ligou para os familiares.
Sim, chegou. Sim, já está em casa. Sim, hoje iria descansar. Sim, amanhã ligava
para contar como foi a viagem a Luanda.
Reparou numa mensagem de Fernando: “Deborah, espero
que tenhas feito uma boa viagem. Só cheguei a Luanda agora, onde estava não
tinha rede. Não me sais do coração nem do pensamento. És uma mulher extraordinária.
Queria muito aninhar-te nos meus braços e manter-te lá para sempre. Daqui a
duas semanas vou ter contigo. Prometo. Quando chegares, liga-me. Preciso ouvir
a tua voz. Estou cheio de saudades.”
O coração bateu descompassado, as mãos começaram a
suar de imediato, faltaram-lhe as forças nas pernas, mas… Sorriu que nem uma
adolescente com a mensagem de Fernando. As dúvidas passaram-se, o medo, o
desconforto. Tudo iria dar certo, certo? Esqueceu tudo e mais alguma coisa e fez
uma chamada…
- Olá Fernando…
Não sabia o que isto era, nem o que poderia vir a
ser, mas fosse o que fosse tinha o direito de permitir-se viver.
Comments
Post a Comment